A desvairada das colinas – 28 de Janeiro a 7 de Fevereiro de 2013

Tomei o metrô no próprio aeroporto de San Francisco. Chegando a Oakland, saí da estação de metrô Ashby e fui a um bar próximo da casa de meus anfitriões para esperá-los, pois não estavam em casa ainda. Foi interessante, pois estava rolando umas danças folclóricas (acho que irlandesa) e lá fiquei com meu mochilão curtindo. Tanto que quando chegaram pra me buscar, deu vontade de ficar pra ver mais um pouco. Meus anfitriões eram Jessica, Dave e Sakura, o cão. Sakura me deu uma calorosa recepção e manteve a intensa hospitalidade durante toda minha estadia!

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Eles tinham umas três bicicletas e deixaram uma na minha responsa. Ela tava meio ferrada, mas dava pro gasto. Assim que acordei, já peguei o camelo e fui fazer uma exploração de Oakland. A cidade faz parte da chamada Bay Area, que é a região metropolitana de San Francisco. Não há grandes atrações turísticas na cidade, mas é um lugar bem interessante e agradável. Apesar de que digam que há áreas perigosas por lá, não vi nada que me oferecesse ameaça. Meu primeiro rolé foi até o centro, onde fiquei descansando no Lakeside Park, um parque que fica à beira do Lago Merritt, situado bem no centro da cidade. O lago é também um santuário de vida marinha (o primeiro a ser assim designado oficialmente em todo os EUA), tendo bastantes aves habitando por ali.

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Lago Merritt

Depois ainda passei pela Chinatown e apreciei alguns prédios interessantes no centro, como os do Paramount Theatre e o Fox Theatre.

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Já no dia seguinte, decidi dar um rolé no sentido norte, rumo a Berkley, onde está a famosa universidade. No caminho desde Oakland, há muitas lanchonetes e restaurantes. Parei sorveteria que tinha uns sorvetes incríveis e também numa padaria onde comprei um pedaço de queijo de cabra delicioso (e barato) e ainda de quebra troquei umas idéias com o atendente, que era mexicano e me deu alguns conselhos sobre sua terra natal. Fui até a universidade e dei umas voltas pelo campus. Saí de lá já no fim da tarde e desci até o porto onde apreciei o crepúsculo. Na volta, parei num restaurante tailandês e jantei um delicioso curry. Antes de voltar pra casa ainda encontrei um mercadinho de produtos latinos, onde comprei uma goiabada brasileira. Aliás falando de coisas latinas e asiáticas, vale mencionar que, apesar de sabermos que a Califórnia ter sido parte do México, é só quando você pisa lá e vê a quantidade de latinoamericanos, que dá pra ter uma noção tanto do refluxo migratório contemporâneo, quanto na herança histórica visível na arquitetura (mais no sul) e na grande maioria dos nomes de cidades e logradouros públicos. Mas aqui nesta parte da Califórnia, não são só latinos que abundam. Devido à localização no Pacífico, favoreceu a vinda de imigrantes asiáticos, que inicialmente vieram atraídos pelas promessas da mineração. Até hoje, pelas ruas de San Francisco, se vê multidões de asiáticos nativos misturados a uma outra multidão de turistas daquele continente.

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Levei a bicicleta para mais um dia de aventura, só que dessa vez iria finalmente pro outro lado da poça, a San Francisco, para conhecer a Golden Gate e dar um rolé pela cidade. Para chegar ao outro lado da baía, tive que tomar o metrô. O sistema metroviário deles se chama BART e tem um sistema de tarifação interessante, que varia de acordo com a distância que você percorre. Você escolhe o trecho e a máquina te dá o preço. Só que o mais interessante foi quando entrei com minha bicicleta no trem. Aqui, no Rio, agora foi conquistado o direito de extender o direito de usar o metrô também durante os dias de semana, a partir das 21h. Lá no BART você pode transitar com sua bicicleta a qualquer hora de qualquer dia. De qualquer forma, quando entrei no vagão e vi todas aquelas pessoas disputando seus espaços na busca do maior conforto, na minha mentalidade defensiva, mantive o chip carioca e fui cheio de cuidados com minha magrela. Encostei-a num canto tentando não ficar no caminho de ninguém e ocupar o menor espaço possível, cheio de dedos e de fato, sentindo estar no erro por estar ali com minha pequena carga. E qual não foi minha surpresa quando, depois que me senti um pouco menos constrangido, olhei para o lado e vi um cara sentado num daqueles bancos duplos, com a bicicleta à sua frente e se extendendo ao longo do banco e simplesmente bloqueando a outra metade do assento. Quando vi aquilo fiquei perplexo, pois havia gente em pé e ninguém manifestava sequer o menor incômodo com aquilo. Eu imediataemte pensei “que abusado!”, e pra falar a verdade, ainda penso isso. Achei muito interessante ver como as pessoas por lá respeitam o espaço do ciclista, mas achei que aquilo era demais. Quando tomava o BART com a bike, só me sentava quando era possível encostá-la numa parede à frente, segurando com a mão e sem ocupar mais que o assento onde estava sentado.

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Alcatraz

Desembarquei na estação Embarcadero e fui margeando a baía ao longo do porto rumo à Golden Gate. No caminho, pode-se ver de bem perto a famigerada ilha de Alcatraz, onde existia um presídio de segurança máxima, cujo edifício ainda perdura no local e atualmente é uma atração turística que recebe muitos visitantes. A prisão foi desativada nos anos 1960, tendo sido, por essa época, ocupada a ilha por uma tribo indígena e desocupada dois anos depois pelo governo.

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Golden Gate

Depois de ter percorrido boa parte do caminho, me dei conta de que as distâncias tinham sido subestimadas quando estudei o mapa. O negócio nunca chegava, mas o pior é que, além da bicicleta ter um banco duríssimo, ela tava toda descacetada e pra pedalar era algo bem sofrível. Bem, foi um perrengue e daqueles bem demorados, mas consegui chegar à bendita ponte. Lá encontrei com a Stephanie, uma menina que atendeu minha publicação na página do Couchsurfing. De lá tive de tomar um busão para voltar ao centro pois não tinha condições de fazer aquele trajeto todo com aquela bicicleta e também porque agora estava acompanhado… e aí, vai outro fato interessante, pude tomar o ônibus, mesmo trazendo uma bicicleta, porque o carro tem um hack para bicicletas no parachoque dianteiro! Que maravilha!

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Lombard street, a rua mais torta do mundo

A parada seguinte foi visitar a Lombard Street, a rua mais torta do mundo. É uma rua que possui um trecho que passa por uma encosta bem inclinada onde ela vai subindo em zigzag. O lugar também possui uma vista muito bonita da cidade margeando a baía. Aí já era fim de tarde, me separei de Stephanie e tomei o caminho de volta.

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Balmy Alley

No dia 2/2, fui visitar uns becos do Mission Dstrict, cujas casas são todas cobertas por murais. Grande parte das pinturas são de estilo e/ou temas latinos, assim como também muito psicodelismo. O lugar mais famoso é a Balmy Alley. Outro beco conhecido é a Clarion Alley, que é formado por dissidentes da Balmy. Depois voltei caminhando pela Mission Avenue até o centro. No Mission District você encontra muitas lojinhas latinas, onde se pode comprar até jaca ou graviola. Mission é um bairro meio alternativo, com muita influência latina.

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Clarion Alley

A minha estada em San Francisco tinha também como objetivo servir de base para mais algumas road trips. Uma era visitar o Parque Redwoods, mais ao norte, com suas sequóias gigantes. Outro, mais ousado, era ir a Utah e visitar os canyons e se possível, descer até o sudoeste dos EUA por toda aquela região de desertos e canyons. Bom, a primeira tentativa foi com relação às redwoods. Lancei um chamado no facebook e consegui o retorno de uma boa galera. Então marcamos de manhã no aeroporto para alugar um carro. Éramos uns cinco, mas qual não foi nossa surpresa quando descobrimos que todos entre nós ou não tinha licença para dirigir, ou se tinha, não tinha a idade legal para usá-la nos EUA e muito menos alugar um carro. Tentamos encontrar um jeito, mas não rolou. Tinha um no grupo que era um cambojano e ficou muito estressado e já decidiu meter o pé. Uma menina também decidiu sair, mas eu, um israelense e uma neozelandesa decidimos tentar alguma coisa.

Ele se chamava Adam e ela, Dani. Decidimos tentar uma carona para qualquer lugar que fosse e decidimos fazer isso na saída do estacionamento do aeroporto. Não tivemos muito êxito na empreitada até que parou um carro. Uma viatura da polícia. O policial nos informou que no estado da Califórnia é proibido pedir carona em logradouros públicos. Foi um tanto desanimador aquela notícia, mas pelo menos o cara não prendeu e nem multou a gente. Ainda trocamos umas idéias com cara e descobrimos que ele tocava gaita de fole.

No fim das contas, pegamos um busão de volta pro centro de San Francisco e o motorista nos deu carona! Yes! Conseguimos! Ficamos os três vagando pela cidade até que decidimos para num parque chamado Yerba Buena Gardens. É uma ampla área verde, com chafarizes e estátuas e construções contemporâneas. Em frente a ele está a igreja de St. Patrick. Era um belo dia de sol e o lugar é excelente pra se estirar. Ao fim do dia, Adam nos convidou para ir a à casa de seu tio, num subúrbio de San Francisco. Dani preferiu retornar a seu hostel. Eu aceitei, até porque tinha dito aos meus anfitriões que passaria uns dias fora por conta da pretendida viagem.

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Yerbe Buena Garden

A casa ficava à beira de um rio e com uma bonita vista desde a sala. O lugar parecia bem aprazível, porém no dia seguinte ao ir embora, tive uma desagradável surpresa. Descobri o que são de fato aqueles subúrbios estadunidenses dos filmes de Hollywood. No meio da tarde, não há simplesmente uma viv’alma pelas ruas. Aquelas casas com seus jardins e apenas carros passando. Fui em busca do ponto de ônibus e cadê que tinha alguém pra informar. Andei, andei, andei e nada. E quando digo nada é nada mesmo. Incrível! Já estava ficando desesperado, quando esbarrei com um grupo jardineiros trabalhando numa propriedade. Fui até eles pedir informação, mas me disseram que não conheciam nada dali (na verdade, mal falavam inglês, pois eram imigrantes latinoamericanos). Foi quando aconteceu algo inimaginável: avistei um shopping center e ironicamente aquilo me pareceu um oásis. Havia gente entrando e saindo de seus carros no estacionamento. Depois de algumas tentativas frustradas, um homem que preparava-se para sair me deu mais atenção e tentou me explicar, mas era meio confuso se orientar naquela árida vizinhança. Então, de repente, o cara me ofereceu uma carona. Disse que poderia me deixar na estação de metrô mais próxima. Perguntei se era caminho de onde ele ia, e ele disse que era no sentido oposto, mas que não tinha problema. Agradeci muito! O brother era um portorriquenho gente boa que já vivia a um bom tempo nos EUA. Batemos um bom papo até a estação e depois que ele partiu e eu agradeci mais um tanto, até me emocionei com aquele gesto de generosidade. Aquilo teria uma influência decisiva na continuação de minha jornada.

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Neste mesmo día, fui encontrar um pessoal que atendeu um outro chamado que fiz no CS para viajar aos canyons de Utah. Era uma canadense e uma chinesa. Laurence, a canadense disse ter feito contato com um cara que vivia num furgão e estava disposto a dar um rolé. Decidimos ir ao encontro do cara e ver qual era a dele. Marcamos num restaurante asiático e ao encontrarmos o figura, não foi exatamente o que esperava. Ele se apresentou como Coco e era uma sujeito de meia idade, com um visual meio forçado de rapper gigolô. Usava um brinco supostamente de diamante e levava consigo seus dois pinschers, tão simpáticos e estilosos quanto o dono. Eu ainda quis ver mais qual era do cara, enquanto que as minas meio que já começaram a tirar o corpo fora. A mim pareceu que o cara estava querendo ir por causa das minas. Daí quando elas desistiram, ele começou a vir com um papo de custos pela viagem, falando que daria uns $80 por dia. Confirmei as suspeitas e dei no pé também. De fato não consegui organizar mais essa outra road trip. Me decidi a, quando voltasse ao Brasil, tirar a habilitação para ter independência numa situação dessas. Nunca dei bola pra carros e amo me deslocar de bicicleta nas cidades, mas em certas ocasiões um motorzinho quebra um galho.

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No dia 3/2 seria a grande decisão da liga de “futebol americano” (não consigo aceitar que chamem FOOT + BALL um esporte que não usa nem os pés, nem tampouco uma bola), o chamado Superbowl. O jogo seria em New Orleans, mas uma das equipes era o San Francisco 49ers. Nas ruas, por todos os lados, se via o nome da equipe local. Nos jardins e até nos letreiros dos ônibus! Foi marcado um encontro para assistir o jogo pela página do Couchsurfing. Foi num bar recheado de gente vestida de vermelho, que é a cor da equipe. Não sei bem como a galera lá se empolga com aquele jogo cheio de paradas toda hora, mas reconheço que apesar disso e de não entender patavinas das regras, aquela partida em especial foi bem empolgante. A equipe rival era o Baltimore Ravens, que a princípio levava grande vantagem. Num certo ponto, não se tinha muita esperança de que o placar pudesse ser revertido, mas os 49ers começaram dar a volta por cima e ao final, apesar de, por muito pouco (não sei bem qual são as contas deles), não terem conseguido superar os Ravens, deu uma batalha bem eletrizante com aqueles brucutus se jogando um em cima do outro.

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A esta altura já havia me mudado para outro couch, mas continuava em Oakland e a minha anfitriã também se chamava Jessica. Certo dia fui a um evento no centro da cidade. Era uma espécie de festival multicultural chamado Oakland Art Murmur, com as ruas tomadas de gente. Várias galerias de arte com as portas abertas ao público, bandas se apresentando, pinturas sendo feitas nas ruas, performances diversas, barracas de comida de rua. Bem interessante essa a festa!

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Por fim meu tempo na desvairada San Francisco chegou ao fim e no dia 7/2, parti rumo a Austin, no Texas, de onde pretendia cruzar a fronteira para o México. O mexicano da padaria onde comprei queijo tinha me dito que a área mais perigosa do México era o norte e principalmente o noroeste, de forma que escolhi o leste, que além disso ali a fronteira ia bem mais ao sul até onde, no passado, os texanos roubaram o território aos mexicanos.

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Um pensamento sobre “A desvairada das colinas – 28 de Janeiro a 7 de Fevereiro de 2013

  1. Adoro ler os percurso que você fez no exterior! Muito legal! Da próxima vez procure praticar mais o cicloturismo pratique antes para a bike não te incomodar! Só foi falta de praticar mais pedal! 🙂

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