17 a 21 de Janeiro de 2013 – De outros carnavais!

Afinal, depois de atravessar tantos campos nevados pela ferrovia, chegamos a New Orleans (ou NOLA, como é carinhosamente apelidada). Cheguei lá pelas 4h (da madruga) e tratei de buscar sinal de wi-fi para comunicar-me com minha anfitriã. Tinha conseguido um sofá através do Couchsurfing, e a princípio tinha dito que chegaria às 21h do dia anterior. Com os atrasos, por diversas vezes, tentei inutilmente acessar a internet, para avisar minha anfitriã do problema, mas não foi possível. Quando consegui acessar a internet no saguão da estação, encontrei uma mensagem dela dizendo que tinha vindo me buscar e não me encontrara. Tinha seu telefone, mas preferi esperar para não incomodá-la tão cedo. Só lá pelas 8h, liguei, mas não funcionava e o orelhão maldito ia comendo minhas moedas. Mandei mensagem via e-mail mesmo e dentro de algum tempo ela respondeu. Disse que ia me buscar, ao que respondi que era só me dar o endereço que me virava. Ela insistiu em me buscar e assim fez.

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Chegou de carro e fomos para sua casa, que fica no French Quarter, o bairro turístico onde se concentra a maior parte do casario colonial de influência francesa. Destacam-se as casa de madeira e também as varandas com gradil metálico trabalhado em bonitos arabescos. A conservação da área foi bem feita e conseguiu recuperar-se da devastação do furacão Katrina. Pelo que se viu, a atenção que faltou na ajuda aos moradores das áreas pobres sobrou com muitos esforços em preservar a galinha dos ovos de ouro do turismo da cidade. Como se sabe, centenas de pessoas morreram (quase 1500) em decorrência da catástrofe, além de tantos outros mais desabrigados. Os moradores das periferias sofreram com o total descaso do poder público e quando estive por lá, ainda se recuperava da tragédia.

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Naquele dia mesmo, Sam foi a uma aula de yoga e me convidou. Depois da aula, fomos fazer umas compras e entre outras coisas, compramos o tal do King Cake, que já havia conhecido na Bélgica. Aqui ele vinha com uma cobertura nas cores tradicionais do Mardi Gras (o carnaval de New Orleans), que são o amarelo, o verde e o roxo.

A propósito do Mardi Gras, apesar de ter chegado antes do tempo da grande festa, calhou que cheguei 2 dias antes do Krewe Du Vieux, uma espécie de pré-carnaval deles. Ao contrário da festa principal, esta é mais tradicional, sem muita tecnologia ou aparatos motorizados nos carros alegóricos. Dispensa aparelhos de som e se mantém fiel às bandas. Mesmo antes de ter chegado à cidade já tinha ouvido que o Mardi Gras não passava de uma pegação para jovens bêbados e sem muito mais que isso. No Krewe Du Vieux, havia bastante sátira com política e temas sexuais. Parecia algo que não desprezava a inteligência. O nome, em francês, faz referência ao nome francês do French Quarter (Vieux Carre) mas bem que poderia ser uma referência aos velhos costumes. Vieux quer dizer velho, de forma que Krewe Du Vieux, em vez de significar Turma do Bairro Antigo, poderia ser Turma das Antigas, do carnaval de raiz!

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Krewe du Vieux

 

Ao longo do desfile dos grupos com seus pequenos carros alegóricos, bandas e foliões, traziam temas que, em geral, eram piadas sobre algum suposto escândalo político local. Lá eles também tem o costume de jogar colares, bolinhas de plástico ou outros brindes para a audiência. Aqui ocorreu algo curioso, quando uma garota arremessava brindes, jogou uma mini-bola de futebol americano, a bola ia na direção de uma menina ao meu lado. Só que eu, no espírito galhofeiro do carnaval, interrompi a trajetória da bola ainda no alto e capturei o brinquedinho. Olhei pra ela rindo e disse: “Next time…” Voltei a atenção pro desfile e então ouvi alguém dizer em inglês: “Esses imigrantes vêm aqui para tomar nossas coisas!” No primeiro instante, aquilo soou aos meu ouvidos por alto e como estava com espírito numa boa vibração de festa, nem me toquei. Então alguns segundos depois me liguei de que eu era um estrangeiro e que havia “tomado” a bolinha da garota. Para completar, estava usando um keffeyeh (aquele lenço palestino alvinegro) que tinha ganhado no Marrocos, o que combinado com minha aparência mestiça, dá um quadro perfeito para o ranço preconceituoso. Pensei então: “Acho que é comigo”. Olhei pro lado e ela estava saindo. Aquilo não chegou a me afetar muito (até achei graça), mas me pegou de surpresa, pois não estava na paranoia a espera de agressões racistas. Felizmente aquilo não expressou o que foi minha experiência em NOLA, pois fui sempre bem tratado. Inclusive é curioso como numa cidade relativamente grande, ao andar pelas ruas, as pessoas me cumprimentavam.

Antes de chegar lá, já estava coordenando com Sam de fazer um evento pelo Couchsurfing de intercâmbio culinário. Marcamos e na comunidade local e compareceram umas 5 pessoas além de nós. Apresentamos o king cake nessa ocasião. Também preparei uma torta salgada. Ficamos lá comendo e depois ainda um bom tempo só de papo.

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Às margens do Velho Mississipi

 

Tenho um amigo de amigo de Santa Barbara, Mohamed, com quem havia entrado em contato, pois a costa oeste estava no meu roteiro e calhou que ele não estaria em Santa Barbara justamente porque estava viajando e passaria por NOLA no mesmo momento que eu! Marcamos de nos encontrar no dia seguinte ao intercâmbio culinário. Ele tinha vindo com uma amiga e nos encontramos perto do centro. Comemos alguma coisa e fomos ao Rio Mississipi e ficamos de rolé num parque que fica às suas margens. Também marquei lá com outro camarada, Lionel, que seria meu próximo anfitrião pelo Couchsurfing na cidade. Andamos mais pelo French Quarter e fomos parar no Parque Louis Armstrong, um lugar bem agradável, com muitos referenciais à música negra.

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Parque Armstrong

 

Falando em música negra, naquele dia demos um rolé pelo French Quarter, onde à noite havia muitas opções de apresentações musicais. Fomos pingando de um bar ao outro. Ao final, terminamos indo a um evento numa das periferias da cidade. Lá fomos a um lugar onde ocorria um ensaio para as festas do Mardi Gras, o desfile dos Mardi Gras Indians, que são grupos de foliões se vestem com fantasias com grande quantidade de penas (muito semelhantes às fantasias de nossas escolas de samba aqui no Brasil), o que seria inspirado nos trajes dos indígenas norte-americanos. Esses grupos existem basicamente entre a população negra, e a explicação para a inspiração estaria no contato que os negros tiveram com povos indígenas, quando arregimentados nos batalhões dos chamados “Buffalo Soldiers” (soldados búfalos), soldados negros enviados para combater indígenas rebeldes. Eram chamados búfalos pelos indígenas, devido a seu cabelo, que lembrava a eles a pelugem daqueles animais. No ensaio, os Mardi Gras Indians não traziam suas fantasias, mas apenas faziam sua curiosa dança de combate. Os dançarinos se posicionam dentro de um corredor aberto pela multidão, se encarando com expressões ameaçadoras, os braços levantados no ar como lanças. Eles corriam um na direção do outro, como se fosse uma justa medieval, com os cavaleiros e seus cavalos quebrando lanças. Paravam bem perto um do outro, quase se tocando. Se afastavam e voltavam à investida depois de fazerem mais algumas poses marciais. Esses bairros periféricos são tidos como bem perigosos (principalmente após a desgraça do furacão Katrina), apesar de que não se passou nada conosco enquanto estivemos por ali.

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Ensaio dos Mardi Gras Indians

 

Nos dias seguintes, terminei me mudando para a casa de Lionel, que fica num bairro chamado Bywater. O lugar é um tipo de subúrbio boêmio e com algum ar alternativo. Lá também tinha um mercado orgânico, onde comprei algum estoque de frutos secos para continuar a viagem. Por ali passei meus últimos dias em NOLA. Mohamed foi com amigos para Austin num carro. Ele me chamou, mas meu plano era chegar logo à Costa Oeste. Talvez se isso tivesse acontecido mais à frente, teria aceitado a proposta. Mas ainda havia muita estrada pra rodar… no chão e na mente.

No dia 21, peguei um voo para Los Angeles.

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