Reconquistando a Espanha. Olé! – 10 e 11 de Janeiro de 2013

Fomos ao porto caminhando. Lá comemos alguma coisa numa lanchonete e antes de embarcar, ainda comprei umas lembranças com um vendedor de rua. Pegamos o ferry de volta pra Espanha. Não pagamos nada, pois tínhamos comprado bilhete ida e volta. Mais uma vez atravessamos o mitológico Mediterrâneo, sendo que agora fazendo a rota dos mouros, que outrora penetraram por terras da cristandade. Este foi o caminho de nossos antepassados.

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Estreito de Gibraltar

 

Chegando ao porto de Tarifa, pegamos o busão grátis do ferry para Algeciras e de lá um outro para Sevilla, a cidade mitologicamente fundada pelo semideus Hércules. Da rodoviária, já fomos caminhando à procura de um albergue. Encontramos um na Calle Adriano. Em seguida fomos dar um role pelo centro em busca de algo pra comer. Encontramos uma lanchonete, que tinha um balcão com diversos tipos de queijo bem apetitosos, incluindo de cabra, manchego e outros. Compramos alguns e uns pães e sentamos num banco da rua pra comer. Ficamos passeando pelo centro apreciando a arquitetura de influência moura e muitos edifícios medievais, marcando as ruas decoradas com laranjeiras por todos os lados. A verdade é a história desta cidade remonta à presença de povos ainda mais ancestrais, quando na antiguidade os fenícios penetraram pelo Rio Guadalquivir e se estabeleceram na região após subjugar os aborígenes que aí já habitavam, sendo sucedidos por cartagineses, romanos e visigodos, antes de então chegarem os mouros. A própria lenda de Hércules surge de um rei fenício que conquistou a região onde hoje se encontra Sevilha e por seus feitos aí, passou a ser exaltado e até mesmo divinizado.

Fomos vagando vendo umas lojas e num momento entramos em uma loja de roupas populares e algo se passou. Uma mulher levava seu filho no colo, um menino de uns 2 anos e ele começou a me olhar fixamente. É muito comum acontecer comigo de crianças ficarem me olhando longamente e com curiosidade. Mas nesse caso foi diferente de tudo que já vi. O moleque me mirava com um olhar profundo e com uma leve nota de seriedade como se tivesse avistado algo surpreendente ou sei lá o que. Sua irmãzinha de uns 10 anos, vendo a cena e com medo de aquilo estivesse me constrangendo tentou virar a cabeça dele pro outro lado, mas foi impossível… ele resistia, fazendo toda força para continuar me olhando, me estudando. Eu sorria pra ele, mas aquilo, apesar de não ter me constrangido, me deixou bem surpreso. Estávamos na fila (Lia foi comprar presentinhos para seus familiares) e eles, também, então o garoto só tirou os olhos de mim quando saímos. Realmente, não sei se isso tem a ver com o caso, mas notei que as pessoas da cidade tem um olhar penetrante, que às vezes deixa até escapar umas faíscas.

Tínhamos já fome àquela altura e encontramos um restaurante vegetariano indiano, com preços razoáveis. Batemos o rango e voltamos pro albergue.

No dia seguinte, aderimos a um free walking tour pela parte histórica de Sevilla. O ponto-de-encontro era próximo à catedral e lá mos reunimos ao grupo. A guia era uma polonesa residente na cidade e fazia aqueles passeios por conta própria e apenas divulgando nos albergues. Após a catedral, fomos à Torre del Oro, localizada às margens do Rio Guadalquivir, uma das torres mais famosas da Espanha e inclusive representa a Espanha em um desses joguinhos eletrônicos de guerra. A construção dela foi obra dos mouros com o objetivo de defender a cidade das investidas dos cristãos. Diz-se que havia uma réplica na outra margem e que de um lado ao outro se estendia uma corrente gigantesca que bloqueava a passagem pelo rio. No entanto, há quem diga que isso não passa de lenda. Também a origem do nome da construção é envolvida em controvérsias. Há quem diga que é porque teria supostamente sido depósito de metais preciosos oriundos das colônias espanholas. Uma versão mais fantasiosa explica que ela já havia sido coberta de ouro, mas outras mais realistas afirmam que era revestida de azulejos dourados, assim como também se defende que o dourado seria, na verdade, de seu reflexo nas águas do Guadalquivir. E aliás, este rio sequer pode ser considerado um rio de verdade, pois as águas são desviadas rio acima (para evitar os problemas de enchentes) correndo pelos arredores de Sevilla, sendo aquilo um curso de água isolado do leito verdadeiro do rio, que agora corre por canais ao longo da cidade, e é mantido pela importância que representa paisagisticamente para a história.

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Catedral de Sevilla

 

Além da presença da torre, na margem oposta, está localizado o bairro de Triana, que apesar de pertencer a Sevilla, tem uma identidade própria muito forte, muito ligada à histórica presença de ciganos e da cultura flamenca. Isso fica marcado mesmo no futebol, de modo que Sevilla é representada por duas principais equipes, que são o Sevilla e o Bétis, sendo este último identificado com os habitantes de Triana. Neste ponto, futebol e política se cruzam. A equipe do Bétis teve seu auge no início dos anos 1930, quando sagrou-se campeão espanhol, porém logo em seguida eclodiu a guerra civil e Triana foi uma área onde se travaram intensos combates e com a vitória dos golpistas franquistas, seguiu-se aí forte repressão devido à predomínio de tendências de esquerda entre a população local. Com a guerra as competições no país foram interrompidas e quando se normalizou o calendário futebolístico, curiosamente, o time se encontrava desmantelado e nunca conseguiu recobrar sua força de outrora. Também aqui no Brasil, não faz muito tempo, sofremos um golpe militar e cabe refletir sobre as implicações que um acontecimento político teve no desenvolvimento do cenário futebolístico, do qual notoriamente se utilizaram os governantes juntamente com as elites, para apoiar seu projeto de Estado.

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Rio Guadalquivir e a Torre de Ouro

 

Daí seguimos para a Plaza de Espanha, uma grande esplanada rodeada por um edifício em meia-lua. Este formato tem o objetivo de simbolizar o abraço da Espanha sobre suas colônias. É uma construção grandiosa, que conta ainda com um lago artificial no meio da esplanada. Me pareceu um tanto cínico esse conceito do abraço colonial se levarmos em conta que é uma construção pós-colonial já de meados do século XX.

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Plaza de España

 

Por fim, fomos ao edifício da Real Fábrica de Tabaco (agora uma universidade), onde terminou o passeio, nossa guia pediu a gorjeta e sugeriu aos presentes um restaurante onde ela iria almoçar. Preferimos buscar outra coisa. Ficamos o dia de rolé pela cidade, e entre outros lugares, fomos a algumas outras igrejas e terminamos a noite em baixo do Metropol Parasol, que é uma construção contemporânea, como uma grande coberta sobre uma praça. Na gigantesca estrutura funcionam também um museu e estabelecimentos comerciais.

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Metropol Parasol

 

No dia seguinte, passeamos um pouco mais pela cidade e tomamos um avião para Amsterdã, de onde Lia voaria de volta pro Brasil. Eu também tomaria um vôo de lá, mas dentro de mais alguns dias e não pro Brasil, e sim pra Nova Iorque, de onde continuaria a jornada rumo ao sul, por terra.

Chegamos bem à noite e depois de deixá-la no embarque, fiquei por lá esperando o dia amanhecer. Foi uma despedida difícil, até porque eu iria ficar um bom tempo na estrada. Não planejava ficar tanto tempo quanto terminei ficando, mas ainda assim era um bom tempo.

Usei um pouco da internet do aeroporto e descansei até amanhecer.

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