11 de Setembro de 2001 (parte II)

Acordei e vi que ainda era muito cedo. Poucos instantes se passaram até que o silêncio da madrugada, até então apenas povoado pelo ruído dos galos e outros animais, foi invadido pelo chamado vindo do minarete. Tinha preguiça de ter de fazer todo aquele ritual da lavagem e reza àquela hora, mas surpreendentemente não estava realmente sonolento. Permaneci deitado e fechei os olhos para voltar ao sono. Porém, apesar da escuridão total, quando fechava os olhos tudo ficava claro, como se o sol estivesse a pino. Parecia que havia alguém me chamando. Abria os olhos e tornava a fechar de novo e sempre era a mesma luz. Se havia mesmo alguém me chamando, não sei ao certo. Poderia ser autosugestão, mas o certo é que o autofalante da mesquita chamava com toda veemência e ressoava agora mais intenso e prolongado que nos outros horários.

Ninguém veio ao quarto me chamar, afinal. Acordamos pouco mais tarde e nos preparamos para sair logo, pois sabíamos que se ficássemos até o próximo salat, corríamos o risco de entrar no mesmo ciclo do dia anterior e não fazer mais nada. Quando já estávamos até calçados, surgiu Lalla Alu e observando que estávamos já preparados para sair, nos lembrou que ainda tínhamos de tomar o café. Tiramos as botas e voltamos. E lá veio mais uma avalanche de biscoitos e pães. Deu pena da Lia, pois ja estava até passando mal. Desde ontem já tentava dissuadir eles brincando com algumas palavras que havia aprendido. Dizia: “Leila (o nome muçulmano que ela ganhou) cule bzaf. Leila halufa!” Isso quer dizer, provavelmente mal falado, “Leila come muito. Leila porca!” Essa última frase falava indicando com gestos que ela iria ficar gorda como uma porca.

Agora, além de Moshbe, também estava seu irmão, Said, um sujeito mais alto e escuro, e de expressão taciturna. No dia anterior, tinha anotado algumas palavras em árabe que aprendi com Moshbe e pedi novamente que me dissesse outras que ainda não tinha anotado. Pra que fui pedir? Não sei se ele entendeu errado, mas resolveu me ditar toda a oração do salat. E lá fomos nós. Anotei transcrevendo como entendia em nossa pronúncia. E pior que às vezes, quando não entendia os complicados sons da língua árabe, Said intervia para corrigir, mas não demonstrava a mesma paciência de Moshbe e parecia até ficar meio irritado quando perguntava mais de uma vez como era a pronúncia. Felizmente não teria de ficar naquela situação por muito tempo mais. Depois de feito li tudo e ficaram satisfeitos. Perguntaram se no Brasil gostavam do islam. Disse que aos brasileiros era um pouco indiferente toda essa história, apesar de sermos um pouco influenciados pela visão imposta pelos EUA. O probema é que eles não entendiam o que era Estados Unidos. Nem United States, nem Etats Unis. Aí me ocorreu uma idéia: citei Bush e deu certo! Todos compreenderam do que falava. Disse que diziam que eles eram vistos como terroristas, mas os homens como Bush eram os verdadeiros terroristas. Moshbe disse que esses homes matavam pessoas inocentes, crianças e velhos. Said interveio lembrando que eles são gente que só trabalha, come e dorme. Então tive de completar: e faz salat!

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Depois de reiteradas insistências deles para que ficássemos, finalmente conseguimos sair. Voltamos para a casa e depois saímos para dar um rolé pela cidade e apreciar o por-do-sol. Também buscamos uma maneira de fazer um passeio pela lagoa de Merdja Zerga. Said indicou um primo seu, com quem tratamos para nos encontrarmos na manhã do dia seguinte.

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