11 de Setembro de 2001

Programei o celular para despertar às 9h. De repente, o celular tocou, mas logo me dei conta de que não era o toque suave do despertador (Samba e Amor, do Chico) e sim o samba pulsante (Malandro No2, também do Chico) que escolhi para chamadas telefônicas. Tampouco eram 9h, mas ainda umas 8h. Ao atender, era uma voz feminina, falando num francês muito ruim, misturado com árabe. Viram nossas chamadas do dia anterior e estavam retornando. Novamente tentei explicar que já estávamos em Moulay Bousselham e que queríamos encontrar Lalla Alu. Dessa vez ainda adicionei que já estávamos hospedados em uma casa. Não sei se meu francês foi eficiente, pois o que ouvi em resposta continuou ininteligível. A ligação caiu e resolvi que iria dormir até o despertador tocar e depois tentaria ligar para eles. Porém, poucos minutos depois eis que soa o celular novamente. A mesma voz falava do outro lado, sendo que dessa vez logo saiu da linha e surgiu uma voz masculina falando um espanhol enrolado, mas já mais compreensível que o francês da outra voz. Ele se apresentou como Moshbe e disse que era filho de Lalla Alu. Repeti nossa apresentação, fazendo menção a Efendi de Granada. Expliquei que estávamos bem perto da praia e do centro. Moshbe perguntou se queríamos ir até a casa deles. Respondi que sim e então ele disse que em uma hora poderia nos encontrar na praia.

Avisei Lia da novidade e fomos preparar algo para comer. Fui tomar um banho e quando ainda estava no chuveiro, toca novamente o celular. Era Moshbe dizendo que já estava quase chegando. Avisei que estava saindo do banho e que logo estaria lá também. Fomos à pracinha que fica logo acima da praia e lá ficamos esperando. Logo ele ligou de novo e disse que já estava lá. Eu disse que também estávamos e dei a referência de uns restaurantes que havia em frente, ao que ele respondeu que estava na praia mesmo, na areia. No Rio, a não ser que você tenha intenção de disfrutar da praia mesmo, geralmente quando se marca um ponto de encontro na praia, na verdade, nos referimos ao calçadão. Então ele pediu que esperássemos lá. Logo chegou Moshbe. Era um sujeito de estatura mediana, um pouco mais baixo que eu, já um pouco calvo, aparentemente chegando aos quarenta. Vestia jeans e um casaco esportivo da Puma. Descemos por uma ladeira estreita que ia em direção ao mar por entre casebres. Logo de cara, avistei uma pequena construção branca. Sua área formava um quadrado, tendo pequenos coruchéis no alto de cada vértice. Ao centro do teto se avolumava uma cúpula. Tudo isso bateu extamente com a descrição que Efendi tinha feito dos mausoléus dos santos sufis.

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Chegamos à areia e não era propriamente o mar, mas uma pequena praiazinha que margeava um braço de água que ligava a lagoa ao mar. Quando me voltei para o caminho por onde descemos, avistei outro mausoléu. Este era um pouco maior era cercado por uma murada também completamente branca, que descia pela encosta e terminava na areia, aparentando ser uma pequena fortificação. Moshbe contou que esse era o túmulo do próprio Moulay Bousselham, o santo que deu nome à cidade. Fomos até um barquinho, com o qual atravessamos para outra margem. O barqueiro cobrou 10 dh por todos. Moshbe se apressou em pagar. Eu tentei dar-lhe o dinheiro, mas ele se negou a aceitar. Ainda tentei oferecer metade do valor, ao menos, mas ele estava irredutível. Desisti antes que se ofendesse.

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Mausoléu de Moulay Bousselham

 

Logo subimos uma leve elevação, por onde se divisava, à direita, o começo da lagoa e, à esquerda, o oceano atlântico. Subindo a encosta pelo seu lado direito também havia um cemitério, no qual se elevava ao fundo mais um mausoléu. Em frente ao muro do cemitério, estava parado um carro, que aparentava ser o transporte que servia a gente daquela área. Encostados no veículo estavam dois sujeitos com aspecto de camponeses, um deles era um pouco gordinho e outro com aparência dura, porém mais jovial. Abriram a porta de trás, onde já estava sentada uma tiazinha toda coberta com panos e uma tatuagem entre as sobrancelhas, e lá nos acomodamos. O primeiro dos homens sentou no banco do carona, enquanto o outro sentou no do motorista. Esperamos Moshbe entrar, mas ele supreendentemente entrou no banco do carona espremendo-se ao lado do gordinho. Eu, vendo aquilo, ainda pedi que viesse para atrás, pois havia mais espaço, mas ele não se moveu de lá. Seguimos a estrada de barro por entre um pequeno bosque, que logo foi se abrindo em plantações que estendiam por ambos lados da estrada. Vez ou outra, passávamos por alguns camponeses que iam pela estrada. Passamos por um pequeno povoado, que nos era anunciado por um pequeno bando de moleques que brincavam pela estrada, como que cobrando pedágio aos que passavam. Em meio a tantas pessoas cobertas com roupas fechadas, motivos religiosos e comportamentos severos, aqueles pequenos pareciam desvelar alguma essência selvagem. Menininhas com seus sorrisinhos maliciosos investigando o carro que trazia os forasteiros. O garotos, alguns rindo-se de nossas roupas e cabelos, outros com olhar desafiador e agressivo. Todos esses pequenos cortejavam nossa pequena caravana gritando e gesticulando.

Passamos ainda por mais um povoado, também com seus pequenos guardiães. Logo, à frente, apareceu uma mesquita. Paramos bem em frente a ela. Moshbe nos pediu para descer e dirigiu-se ao motorista para pagá-lo. Dessa vez, já sem esperanças, dirigi-me a ele de novo tentando oferecer alguma ajuda para pagar. Como esperado, insistiu em pagar tudo e assim o fez. Nos levou para dentro de uma casa que ficava como que anexa à mesquita. Cruzamos um pequeno pátio até entrarmos num cômodo que ficava logo na entrada. Daquele quarto seguia um pequeno corredor que saia em outro pátio, que formava uma espécie de átrio com outros cômodos ao redor. Até onde pude conhecer da casa, parece que os quartos não se conectavam e era necessário passar pelas partes externas para acessar os demais. O quarto em que ficamos era uma peça retangular comprida de algo como 3x6m. Logo nos levaram ao pátio interno e lá surgiu uma senhora um pouco gorda e dentuça. Possuía uma tatuagem na sombrancelha, entre os olhos e outra vertical entre o queixo e o lábio inferior. Nos apresentaram a ela. Era a Lalla Alu. Nos cumprimentamos e entramos com ela de volta ao quarto onde estávamos.

Ela falava apenas árabe, então basicamente ouvíamos ela dizer algumas saudações em árabe e fazíamos alguma comunicação visual e gestual. Estávamos sentados em uma espécie de sofá quase ao nível do chão e que circundava toda a habitação. Eu e Lia sentávamos em uma das paredes e Lalla Alu sentava-se na parede oposta. Entre nós havia uma mesa redonda baixinha, sobre a qual logo foram servidos alguns biscoitos e pães, além de um bule de chá e uma garrafa de água. Quem servia era uma das noras dela. Era uma quantidade enorme de biscoitos. Alguns tinham umas amendoas incrustradas e outros recheio de chocolate. Comemos alguns, mas logo Lia parou. Lalla Alu, como qualquer senhora brasileira, insistia para que comesse mais.

Então, depois de um tempo se levantou e com um gesto, pediu para que a acompanhássemos. Saímos da casa, atravessamos a estradinha em torno da qual se espalhava o povoado e entramos por um pequeno caminho que nos levava por uma pequena elevação, onde no alto havia umas árvores. Lá em cima, vimos à frente um riacho que separava aquela parte onde estávamos de umas plantações. Nos sentamos na encosta e ficamos admirando os campos. Ela apontou para a frente e falou alguma coisa, do que deu para entender que falava que era uma plantação de morangos. Ficamos ali ainda mais um pouco e descemos para o outro lado e caminhamos por um caminho que seguia espremido entre o rio e o bosque. Mais a frente depois de algum tempo caminhando, avistamos três homens vindo ao longe. Ela parece ter identificado alguma coisa, pois nos pediu para parar e então sentamos. Nos disse algumas palavras que parecia ter a ver com aqueles homens. Pegou um lenço branco e deu a Lia e pediu que ela colocasse em volta da cabeça. Pegou também um outro pano, que era um keffyeh preto e branco tipo palestino e me deu, pedindo também para que colocasse na cabeça.

Logo chegaram os três e vieram em nossa direção. Primeiro saudaram Lalla Alu e depois nos cumprimentaram. Trocamos efusivos abraços, beijos no rosto e a tradicional saudação com a mão direita levada ao coração. Sentamos de novo e eles falavam várias coisas, que naturalmente não entendemos, mas pareciam ter a ver com Alá. Um deles era já idoso, outro de meia idade e o terceiro aparentava algo entre vinte e cinco e trinta anos. O mais velho então iniciou uma cantoria. Era um refrão que repetia alguma saudação a Alá seguida de uma ladainha num ritmo que lembrava o nosso repente nordestino. Depois cada um dos outros dois puxou alguma cantoria. Pelo menos os refrões eu estava conseguindo pegar. Era uma coisa bem contagiante aqueles cantos. Quando paramos a de cantar, começou uma conversa entre eles. A certa altura, ela começou falar certas coisas num tom mais emocionado,constantemente levando as mãos aos céus e percebi que seus olhos estavam cheios d’água.

Depois de mais um tempo ali. Voltamos para a casa, só que agora acompanhados dos caras. Entramos no quarto com Lalla Alu e os outros foram para uma casinha dentro do terreno. Depois eu fui chamado para ir até onde eles estavam e Lia ficou no quarto. Esse outro lugar me foi apresentado por Lalla Alu como pukara. Além dos três homens, estavam ali outros dois. Nos cumprimentamos de novo e novas cantorias começaram. Enquanto os que já havia conhecido trajavam roupas típicas árabes, os demais usavam roupas ocidentais simples. Depois vim a saber que aqueles eram sidis, homens que vivem devotados à religião. Os outros, eram simples trabalhadores da região. O homem de meia idade aparentemente me adotou e ficava me ensinando todos os cantos. Durante todo o dia ele realmente me guiou em todos os passos. Ainda que pouco compreendesse o que ele falava, tinha ganhado um mentor para penetrar no universo muçulmano.

Todos estávamos em meio a algumas conversas, quando de repente atravessou o ar o canto vindo da mesquita chamando todos os fiéis ao salat (a missa dos muçulmanos). Diferentemente de outras religiões que conhecemos, no islamismo, só é permitida a entrada no templo aos fiéis. Sendo assim, apenas esperei que eles saíssem para suas obrigações. Mas me surpreendi quando fui convidado a sair com eles. Nos dirigimos à mesquita e à entrada encontramos Moshbe e outros homens. Fomos todos a uma espécie de vestiário que fica anexo à mesquita. Lá me indicaram que era necessário lavar-me para poder entrar no templo. Havia num canto um pequeno fogareiro onde esquentaram um pouco de água. Meu mentor estava comigo e despejou a água, ainda morna, num baldinho. Me disse que entrasse num box e que fizesse a lavagem de meus genitais. Depois fomos para a calçada e lá me ensinou como fazer o restante da lavagem. Só era permitido tocar a água com a mão direita e se fosse necessário usar a água com a esquerda, a outra deveria passar para ela. Há uma ordem de partes do corpo a serem lavadas, que não pode ser trocada. Não me recordo bem qual era a ordem, mas sei que se começa com as mãos. Lava-se também os braços, os pés e as pernas, a boca, o nariz, os ouvidos, a cabeça, o rosto. Algumas partes se lavam por três vezes, enquanto outras, apenas uma.

Completo o processo, finalmente entramos na mesquita. Todos tiram os calçados e os deixam à porta. O interior é bem amplo, composto de uma espécie de antessala e uma seguinte, onde se realiza propriamente o salá. Todos os espaços são devidamente cobertos de carpete. Lá dentro estava um homem voltado para uma reentrância na parede, onde repousava o Corão. Esse homem era o Iman, o sacerdote. Logo atrás estavam os homens alinhados lado a lado ao longo do salão. Os pés devem se tocar ou estar bem próximos. Começa então uma série de louvores que são feitos em diferentes posições que fazem parecer ligeiramente com uma prática de yoga. Ficamos em pé com a mão no ventre, depois inclina-se à frente com as mãos nos joelhos, depois se agacha no chão com as mãos ao lado da cabeça e a testa tocando o solo e por fim se ajoelha antes de levantar-se. A coisa é que isso se repete por várias vezes e acompanhado por uma reza muito longa.

Ao final, voltamos à pukara, mas logo fui conduzido de volta ao quarto onde estava Lia. Lá estavam Moshbe e sua mãe. Já era hora do almoço e então chegou uma grande travessa de couzcouz. Ele vinha coberto com um frango e legumes cozidos. Havia batata, abobrinha, cenoura e repolho. Aí surgiu um problema, Estava num lugar com gente muito simples e que me oferecia aquele prato. Sou vegetariano, mas creio que, para eles, não seria possível explicar quanto a isso e é provável que isso provocasse algum estranhamento e até mesmo alguma ofensa, pois era tudo que tinham a nos oferecer. Uma vez, na casa de pescadores no Piauí, quando me ofereceram peixe, neguei alegando ter alergia e que poderia passar muito mal. Aqui supus não ser preciso sequer tocar no assunto. Como o prato era bastante grande e tinha uma diversidade de coisas e era um prato coletivo, podia simplesmente deixar o frango de lado e comer todo o resto. Às vezes até fingia que pegava um pedaço de frango com o pão, mas deslizava para o lado e pegava um legume. Como tinha ajudado a Lia mais cedo a comer o pão quando ela não agüentava mais, agora falei: “É tua vez de segurar a onda com esse frango agora”. Como já era de praxe, quando percebiam que desacelerávamos o ritmo, eles ficavam a todo tempo insistindo para que comessemos apontando para alguma coisa no prato. Quando uma vez apontou para o frango, eu, percebendo que eles não estavam comendo mais, voltei para eles a atenção, copiando as ordens deles com o pouco de árabe que aprendi e dizendo: “Vocês também não estão comendo. Comam!” Eles davam uns sorrisinhos e logo depois já estavam apontando para comermos mais comida, mas pelo menos esqueciam do pobre do frango…

Tempos depois, Lia já havia se rendido e eu ainda encarava o prato, que de fato estava muito gostoso (ainda mais que o frango estava seco e não tinha caldo para misturar com o resto). No entanto, num dado momento nem eu agüentei mais, mas quando me dei conta, apesar de ter comido pelo menos 1Kg, vi que a travessa estava quase que intocada!

Acho eles tiveram clemência da gente, pois logo trouxeram umas mantas e retiraram a montanha de couzcouz. Era hora da sesta. Nos deixaram lá sozinhos. Lia não demorou a apagar, mas eu só dei uma cochilada bem rápida e fiquei a maior parte do tempo acordado refletindo sobre o que estava se passando. Aquelas pessoas isoladas naquele rincão do planeta, apegavam-se a sua fé e com ela, preservavam sua cultura ancestral. Permaneciam quase que completamente alheios aos acontecimentos do ocidente, que se fazia presente em camisas e bonés de clubes de futebol europeus e algumas tecnologias básicas do dia-a-dia. A eles pouco importava se, no ocidente, boa parte das pessoas os via como terroristas, fundamentalistas, atrasados ou qualquer outra coisa que o valha. Era a forma que tinham para encontrar uma identidade e manter alguma estabilidade para sua sociedade. No fundo, é isso o que todos buscamos com nossas crenças e teorias. Será que temos conseguido algum sucesso com a apropriação que fizemos do padrão europeu? Será que nosso pseudoliberalismo da hipersexualidade logrou superar tanto assim a alienação que tanto apontamos nas burkas e véus?

Meus pensamentos foram repentinamente desfeitos pela travessa de biscoitos que retornou ao recinto com Lalla Alu. Entre uma saudação e outra, previsivelmente, nos empurrava os quitutes. Mas não houve tempo para que os biscoitinhos nos invadissem as entranhas, pois varou o ar o chamado vindo do minarete do templo, serpenteando por nossos ouvidos com sua melodia dramática e renitente. Olhei para ela como que para confirmar o que já sabia e ela, sorrindo, apontava em direção à mesquita. Lá fui eu novamente.

Desta vez, o próprio iman veio me auxiliar na lavagem. Era um tipo jovial, com uma expressão serena e sempre muito cordial. Este salat estava mais movimentado, pois havia fiéis ocupando o salão de uma parede à outra. Ainda houve mais dois salats naquele dia e nós começamos a pensar em como voltar para Moulay Bousselham, até porque todas nossas coisas estavam lá e como a chave estava com a gente, teríamos de pagar a noite de qualquer jeito. Porém, quando vimos já era a hora do próximo salat e eles fizeram questão de que ficássemos. Bem, não pudemos recusar… Neste salat cabe registrar um fato interessante, apesar de um tanto constrangedor. Após toda aquela maratona de couzcouz, com eles nos empurrando comida a todo custo, ocorreu uma combinação fatal quando tive de fazer toda a ginástica de sobe e desce do salat. Involuntariamente, liberei uma leve flatulência… não foi nada de mais, mas suficientemente para me deixar constrangido e para que Moshbe, que estava bem ao meu lado, também ouvisse. Ao final de uma seqüência de louvores, ele discretamente se voltou para mim e indicou que o acompanhasse. Saímos da mesquita e entramos no banheiro, onde me sinalizou que fizesse a lavagem purificadora de novo. Voltamos para o salá, mas mesmo depois que todos se foram, continuamos lá até terminarmos toda nossa oração.

Ao voltar pro quarto, decidimos ir então, mas eles, que já estavam insistindo antes para que ficássemos, agora disseram que não havia mais barcos operando na ligação com M. Bousselham. De fato, já era noite àquela altura, então aceitamos ficar, mas pedi que ao menos nos emprestassem o celular para ligar a Said dando satisfação de que não voltaríamos aquela noite. Como antes havíamos explicado que precisávamos ir por já termos pago a noite na casa, quando acabei de falar com Said, Lalla Alu pediu para falar com ele também. Nunca soube o que tanto falaram, mas pelo tom da voz dela, parece que estava pedindo para que não nos cobrasse aquela noite. Se foi isso, nosso amigo Said não se convenceu…

Tendo, por fim, decidido ficar, todos eles se mostraram muito satisfeitos e nos serviram uma travessa de tagine. Assim como o couzcouz, estava muito bom, mas vinha numa quantidade desumana. Como o tagine é um prato mais leve, até que consegui comer mais, mas não deu pra dar conta de tudo. Junto conosco estavam Moshbe e Lalla Alu. Ficamos conversando e neste ponto, de maneira absolutamente casual, fui batizado com um nome muçulmano. A partir daquele momento, aquela gente me conhecia como Abd El Haq. Só mais tarde, longe de lá, vim a descubrir a grafia e o significado. Quer dizer “O Servo da Verdade”.

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Ecoou o chamado para a última obrigação do dia. Lá se foram Moshbe e Abd El Haq. Este salat foi o mais interessante, pois após toda a oração, as pessoas foram saindo, mas alguns permaneceram e se sentaram em círculo sob a liderança do iman e começaram a recitar versos do Corão. Me sentei junto a eles e como não podia cantar, apenas acompanhei o ritmo com o corpo e logo estava como os outros balançando para trás e para frente. Quando via aquelas imagens na televisão de judeus ou muçulmanos se balançando em meio a suas orações, sempre achei algo esdrúxulo, mas ali seguindo a melodia intensa e envolvente, meu corpo naturalmente entrava em movimento no fluxo. A mente fica completamente absorvida flutuando na onda dos versos.

De volta pro quarto, nos deixaram para dormir. Era ainda cedo, mas creio que é porque o primeiro salat do dia é às quatro da madruga. Fiquei preocupado, imaginando se não iriam me chamar naquele horário. Desisti de pensar nisso e dormi.

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