Às portas do mar de areia e silêncio – 3 a 5 de Janeiro de 2013

À noite de 2 de janeiro tomamos um ônibus (150 dirhans) para Rissani, uma cidade próxima de Merzouga, nosso destino. Para lá não havia transporte direto, pois é um lugar muito isolado e sem estrutura de estradas. O lugar no Marrocos mais visado em termos de turismo no deserto é Ouarzazate, que é inclusive conhecida como a Hollywood marroquina, por ter sido cenário pra a filmagem de diversos filmes. A decisão de ir para Merzouga se deu a partir de recomendações de marroquinos que nos deram conhecimento deste lugar, mais rústico e bem menos crowdeado. E de fato, só de procurar no Google Maps já deu pra ter uma noção de aonde rumávamos. Quando encontrei o povoado, situado no sudeste marroquino, as estradas terminavam e não havia mais povoamentos considerados pelo Google. Estávamos a caminho do deserto total.

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O trajeto de ônibus fizemos à noite, mas pelo que havíamos escutado, era muito bonito de ser feito de dia, pois passa por paisagens iradas de montanhas e desfiladeiros. só que tínhamos alguma pressa, então optamos pela viagem noturna mesmo. Chegamos a Rissani já de madrugada e aí estavam os motoristas dos hotéis de Merzouga. Olhei pra cara deles e aproveitando que ainda tinha bastante gente do ônibus ali presenciando, escolhi um. Fomos por uma estrada até que o carro se desviou e se meteu pelo meio da areia. Apesar de que já sabíamos que o lugar era no meio do nada, aquilo me assustou um pouco a princípio. Pensei “onde é que esse cara tá levando a gente?” O carro era uma 4X4 e ia se metendo pelas colinas de areia batida. Depois de um tempo, por fim, avistamos algumas poucas luzes ao longe. Quando chegamos, fomos recebidos pelo dono, um sujeito com ar bonachãoe algo invasivo. Nos acomodaram em nosso quarto. O lugar era bem simples, mas confortável, sem internet ou qualquer dessas comodidades.

 

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banho de dromedário

Acordamos, fomos tomar o café e já saímos para explorar as redondezas. Já quando começamos a caminhar, vimos uns dromedários (sim, esses que vemos no Sahara não se chamam camelos) descansando juntos. Foi interessante ver como eles se limpavam, rolando na areia. Andamos rumo a umas dunas, no caminho, havia umas com solo rachado, com grandes placas de argila, que cozinhadas naquele sol pareciam grandes cacos de cerâmica. Algumas partes estavam úmidas, sinal de que apesar da secura característica, deve ter havido alguma chuva recentemente (a não ser que fosse de origem subterrânea). Continuamos até um pequeno povoado ao lado, onde havia uma mesquita bem rústica, feita em alvenaria e com os tijolos à mostra. Avançamos até outras dunas e daí divisamos ao fundo o Deserto Negro (le desert noir), já na fronteira com a Argélia. São montanhas negras se estendendo sobre uma planície que ia até onde os olhos se perdiam e sem dunas.

 

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o Deserto Negro ao fundo

Atravessamos novamente o povoado até a parte omde estávamos e subimos umas dunas maiores. Já era fim de tarde e aí ficamos curtindo o crepúsculo. Regressamos ao hotel e acertamos um passeio para o dia seguinte deserto adentro. Não gosto de fazer tours, mas meter-se no Sahara sozinho assim não seria muito inteligente. Havia vários tipos de passeio. Desde um bate-e-volta de um dia apenas até um de umas duas ou três noites, dormindo uma noite num acampamento entre as dunas e outra com uma tribo no Deserto Negro. Optamos por um meio termo, passando uma noite nas dunas.

Cedo, logo depois do café-da-manhã, fomos ao encontro de nosso guia, chamado Hassan. Ele preparou os dromedários e assim que estavam prontos, partimos. Não gosto da idéia de usar animais como meio de transporte. Nunca faço passeios a cavalos e coisas assim, pois estar montado em outro animal, subjugando-o não me agrada em nada. Neste caso, outros meios de transporte não existem (e ainda que houvesse passeios em carro, seria também um impacto grande as máquinas devorando as dunas). Talvez o certo fosse não fazer esse tipo de passeio mesmo ou então meter-se a pé pelas dunas com uma bússola…

 

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À medida que avançávamos pelas dunas, era como se estivéssemos navegando por um grande mar, com enormes ondas de areia movendo-se bem lentamente por todos os lados. Raramente víamos algum arbusto ou palmeira, mas com alguma freqüência passávamos por tendas de beduínos. Chegamos ao acampamento onde passaríamos a noite. Ficamos passeando pelos arredores e caminhava pelas dunas, que compunham a paisagem com a luz amena da tarde.

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acampamento de beduínos

 

Por um momento passei em frente aos dromedários, que descansavam atrás de um arbusto perdido em meio ao areal. Prestei atenção em um que comia vagarosamente as folhas do arbusto. Eram apenas folhas secas, mas ele movia a bocarra de um lado para o outro com aquela expressão de satisfação em seus olhos profundos. Imaginava se aquele animal sentia algo mal por mim por lhe haver cavalgado durante todo o dia. Mas minha presença não parecia provocar-lhe nenhum incomodo sequer. Mastigar aquele ramo seco parecia ser a coisa mais importante do universo. Será que de tanto acostumado àquela realidade, já não sente sua prisão, tal como se passa com nós, humanos, aferrados a uma rotina, anestesiados e autoencarcerados em deveres dos quais não conseguimos nos ver desapegados e aceitamos com resignação? Ou será que são capazes de perceber tudo isso e com alguma sabedoria superior, conseguem centrar suas existências em disfrutar cada momento, independente de suas misérias? Vai saber… só sei que o grandão continuava ali saboreando cada pedaço de folha seca e pouco preocupado com minha presença e meus eventuais pensamentos a seu respeito.

A noite foi chegando e Hassan foi preparar o rango. Nos preparou tagine de vegetais, que comemos acompanhado de alguns pães. Hassan é um sujeito divertido e curioso e ficamos conversando sobre coisas de nossas vidas que ele queria saber. Perguntou se eramos casados e outras coisas. Apesar de que estar junto por aí e não ser casado era uma coisa incomum, ele afirmava não concordar com todos os costumes muçulmanos. Ele mesmo ainda não pensava em casar e explicou como funciona o sistema matrimonial por lá. Se um homem tem interesse em uma mulher, procura sua própria mãe, que vai comunicar a mãe da moça. A mãe pode consultar a pretendida ou já decidir de uma vez. O casamento é arranjado e quando consumada a união na “lua de mel”, a mãe do esposo, que está esperando do lado de fora do aposento nupcial, imediatamente após o término dos “trabalhos”, vai fazer uma inspeção na vagina da mulher a verificar se houve sangramento. Se ela não era mais virgem, a união é anulada. Ainda perguntei se, no caso do esposo saber que a mulher não é mais virgem e ainda assim quiser se casar, não teria como dar um jeitinho, tipo usando sangue de galinha ou algo que possa se passar por sangue humano, mas ele disse que as véia são malandras e já sabem tudinho.

Mas tem um problema nessa coisa (ou melhor vários): se os dois só podem se conhecer intimamente após o casamento, o que acontece se as coisas não funcionam entre eles? Geralmente a união vai pra frente de qualquer jeito mesmo, mas se por acaso o cara não gostar mesmo, ele pode desfazer a união, mas neste caso teria de pagar uma indenização para compensar o fato de que a moça agora não é mais “pura”. A verdade é que relações antes das núpcias acontecem a rodo, por debaixo dos panos, com o único detalhe de que somente não se pode haver o rompimento do hímen… E indo mais além, com toda esse distanciamento entre homem e mulher, os homens terminam desenvolvendo mais intimidade entre eles do que para com o sexo oposto e naturalmente, o homossexualismo florece pelos cantos. Mesmo quando não chega a esse ponto, pode-se perceber como eles demonstram afeto entre si, muito mais que nós, ocidentais. Pela regra, quando caminhando na rua, a mulher deve vir atrás do homem, enquanto que dois amigos normalmente andam lado a lado e podem tranquilamente dar as mãos.

Hassan, que tem 27 anos, disse que teve sua primeira relação sexual apenas 2 anos antes. Aparentemente, foi seduzido por uma polonesa que fez um tour com ele. Terminou se apaixonando pela garota, que apenas estava se divertindo e não deu mais bola pra ele, depois de um tempo. Apesar da decepção na primeira experiência, ele considera que aquilo abriu sua mente. Bendita a danada dessa polaca! Lutando pela libertação da humanidade das trevas e de todo atraso!

 

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Depois de terminar o rango e o intercâmbio cultural, fomos dormir. Decidimos dormir fora da tenda, ao ar livre para ficar sob o manto de estrelas que a Via Láctea estendia sobre nós. Era um céu absurdamente estrelado. Nos cobrimos com muitos cobertores, devido ao frio, mas assim como, por conta do inverno, não sofríamos muito com o calor do dia, por outro lado, a noite era mais fria que de costume. Pudemos ficar apreciando aquele imenso planetário que se estendia até onde se elevavam as dunas enquanto agüentávamos a friaca. Quando não deu mais, entramos para a barraca.

No dia seguinte acordei antes da alvorada e me meti pelas dunas para subir a uma mais alta e tentar ver o nascer do sol. Andei bastante, mas quando cheguei ao topo de uma das mais altas dali, ainda assim era impossível, pois é um mar gigantesco de dunas até ondeos olhos se perdem, de forma que o sol apenas se revelou quando já estava bem alto acima delas. De qualquer forma, foi uma grande experiência, pois tive que me distanciar tanto, que logo estava isolado num verdadeiro mar de areia e silêncio, algo único. Fiquei ali degustando aqueles momentos de solidão, perdido naquela infinidade, como mais um grão de areia.

 

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De volta ao acampamento, tomamos o café-da-manhã e nos preparamos para sair. No caminho de volta percebi que aquele céu não era especial apenas quando estrelado. Naquele céu aberto em pleno dia, senti aquele azul tão intenso, como jamais havia visto. Era como se o silêncio, com seu peso titânico, empurrasse aquela abóbada celeste sobre meus olhos e ouvidos. Mas era uma agressividade que, ao invés de violentar, desperta e extasia os sentidos, ao mesmo tempo em que entorpece a mente.

 

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Chegamos ao hotel, fizemos check-out e partimos. Primeiro chegamos a Rissani, onde ficamos um tempo no restaurante que também pertence à família do dono do hotel do hotel em Merzouga. Almoçamos e acessamos a internet ali. Descobri que minha avó havia falecido. Desde que havia me despedido dela, já esperava aquilo, mas não deixou de me pegar desprevenido. Acho que a energia do deserto me ajudou a segurar a onda.

Nosso próximo destino era a pequena Moulay Bousselam, na costa atlântica. Nada de Casablanca! Fomos rumo a Rabat, a capital marroquina (não é Marrakesh, ao contrário do que pensa a maioria), para baldear. No caminho passamos por paisagens incríveis, como a Garganta de Dades. Chegamos lá à noite e tomamos o ônibus para Moulay.

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