Pra cá de Marrakesh! – 1 e 2 de Janeiro de 2013

Saímos de Chefchaouen em ônibus rumo a Fes (custou 70 dirhans). Essa é uma das principais cidades imperiais do Marrocos e dentre todas foi a que escolhemos para visitar. Geralmente Marrakesh é mais visada pelos turistas, mas justamente por isso e pelo fato de que isso atrai ainda mais toda aquela desagradável malha de parasitas que povoa esses lugares. Traficantes, ladrões, “guias” forçados, pedintes, vendedores desesperados e todo tipo de criaturas incovenientes que podem interferir consideravelmente no gozo de um simples passeio. Isso sem falar nas hordas de turistas perambulando atabalhoados com sua fúria consumista. E sim, além de todas riquezas naturais e culturais, o Marrocos é bem abundante em todas essas coisas. Este definitivamente não é um país para viajantes de estômago fraco!

Assim Fes foi a única cidade imperial a ser visitada. É significativamente grande e de grande importância histórica e cultural, mas também não chega a ser uma cidade tão grande e visada como Casablanca e Marrakesh. Além do que não tínhamos muito tempo e priorizávamos explorar mais paisagens naturais e populações mais rústicas. Fes foi formada a partir da unificação de duas cidades divididas por um rio, sendo uma delas constituída por em grande parte por imigrantes andaluzes e a outra, de imigrantes provenientes da região onde situa a atual Tunísia. Estes dois grupos eram de origem árabe, o que tornou Fes um foco árabe em uma região onde predomina a etnia berbere. Foi sempre uma cidade de grande importância, seja pela localização estratégica nas rotas comerciais, seja por ter sido importante centro intelectual, e também por ter sido, em diversos momentos, capital das dinastias que dominaram a região do atual Marrocos. Já chegou mesmo a ser a maior cidade do mundo nos idos do século XII.

Para Fes tínhamos conseguido um couch com um cara chamado Mohamed (como mais da metade da população) e também um outro cara chamado Ali que nos havia convidado a conhecer a cidade e este aparentemente vivia lá pelo centro. Fuimos ao encontro de Ali no hotel onde trabalha. Ficava na medina e ele nos havia dado umas coordenadas. Como essas medinas são verdadeiros labirintos, foi um pouco sofrido, mas conseguimos por fim. Apesar de escondido num daqueles becos, o hotel era bem arrumado, com um átrio cheio de decorações islâmicas e sofás. Nos cumprimentamos e acomodou nossas coisas numa sala. Depois nos serviu chá e umas torradas com geléia. Era um cara bem educado e cheio de “bons modos” ocidentais. Estudou durante um bom tempo na Europa e também tinha uma licença de guia, o que o habilitava a andar pela medina ao lado de estrangeiros. Há uma lei no Marrocos que proíbe que nas Medinas, locais acompanhem turistas! Não importa se é seu amigo, pois é proibido terminantemente. É uma maneira que encontraram de evitar ou pelo menos diminuir roubos, trapaças e as abordagens incovenientes.

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Entrada para a medina de Fes

 

Ali nos disse que não podia nos receber em sua casa, pois seus pais não gostavam disso, mas se oferece a passear conosco e disse que se quiséssemos ficar no hotel, poderíamos fazer um preço bem barato. E era bem barato memo, mas preferimos ficar em couch. Assim chamamos Mohamed de um telefone do hotel. Marcamos de nos encontrar na rodoviária à noite. Passeamos pela medina, com cuidado para não nos perdermos e evitar malandros. Compramos amendoas e azeitonas bem baratas. Essas coisas, que no Brasil são carinhas, lá são vendidas a cada esquina bem baratas. Basicamente durante toda a passagem pelo país, essa foi a base da nossa alimentação. Sempre trazia comigo uns saquinhos com azeitona, amêndoa, tâmara, passas e outras coisinhas. Não demos um rolé muito longo, pois fomos só dar olhada em como funcionava a coisa. Ainda comprei um saquinho de açafrão (não lembro quanto custou, mas foi muito mais barato que em qualquer outro lugar que já vi) e uma raiz seca que tem um sabor muito bom e exótico, chamada galangal (esta me acompanhou por toda viagem!). Antes de anoitecer voltamos ao hotel e esperamos Ali terminar seus afazeres para irmos ao encontro de Mohamed.

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Tomamos um taxi para a rodoviária e o motorista gostou do Chico Poeira, pois além de simpático, era alvinegro, como o time marroquino dele (também era torcedor do Barcelona). Ali fez questão de pagar a corrida. Chegamos à rodoviária e fomos em busca de nosso futuro anfitrião. Na busca terminamos encontrando Peter e Jane, dois britânicos que estavam no grupo que saiu de Tânger a Chefchaouen. Conversamos, tiramos umas fotos juntos e nos despedimos. Falamos com Mohamed por telefone e marcamos de encontrar ali do lado de fora. Estava chovendo e foi difícil encontrá-lo em seu carro. Estava com seu primo, também chamado Mohamed (só pra variar) e apresentados todos, fomos a um café próximo para conversar. Ao contrário de Ali, Mohamed, era um tipo mais simples, sem os mesmos “modos” e “cultura” de Ali, mas também mais descontraído e efusivo. Mohamed trabalha como atendente de telemarketing e Mohamed 2 (assim lhe chamávamos) recém chegou da Itália, onde viveu por um tempo e estava desempregado.

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alvinegros!

 

Depois de gastar alguma saliva, saímos. Ali se apressou a pagar a conta! Os Mohameds nos levaram em seu carro até a casa, mais ou menos afastada do centro. Lá nos serviram um lanche, com uns biscoitos típicos, torradas, mantega, geléia e chá. O mais curioso é que ele não preparou nada. Na verdade, aquela casa sequer tinha uma cozinha. Onde seria a cozinha havia apenas ferramentas e peças de metal. Havia uma outra casa ao lado, onde viviam as mulheres da família e lá preparavam a comida. Em nenhum momento tivemos sequer um contato visual com alguma delas… mas a comidinha estava bem gostosa!

Durante as conversas, eles perguntavam muitas coisas sobre o Brasil. De sobre como é nossa cultura. Sobre o futebol, sobre os relacionamentos. Foi engraçado que a maior novidade que me mostraram foi um vídeo do “Ai, se eu te pego” (à essa época não sabia ainda quem cantava essa coisa) e o patético clipe do “Gangnan Style” (já havia visto muitas postagens sobre isso na linha do tempo do meu facebook, mas nunca me animei de olhar o que era). Fico imaginando que se não fosse pela presença de Lia, me mostrariam muitas coisinhas mais do Brasil…

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A sala tinha um banco acolchoado que margeava duas paredes em forma de “L”. Aí fizemos a refeição e aí mesmo dormimos.

No dia seguinte saímos com os Mohameds para explorar a Medina. Nos trouxeram no carro, mas para caminhar por lá, havia o tal problema de que era proibido a marroquinos acompanhar estrangeiros. Para contornar isso, dei a idéia de que fossemos juntos, mas ligeiramente afastados, fingindo que não nos conhecíamos. Fomos explorando além do que já havíamos feito sozinhos no dia anterior. E ainda pedia pra eles perguntarem os preços das coisas que me interessavam. Além disso ajudar nos preços, também o Marrocos, assim como os demais países muçulmanos, é um lugar propício para pechinchar. Em alguns casos, não barganhar é quase uma ofensa.

Passamos por uma mesquita, cujo interior era muito bonito e com detalhes bem trabalhados. Infelizmente não nos deixaram entrar, pois a doutrina deles não permite a entrada de infiéis no templo. E de fato, tenho de confessar que quando entro numa igreja católica para apreciar a arquitetura, me sinto um pouco incomodado, como se estivesse invadindo um espaço alheio. Porém o maior incomodo senti em outro lugar a que nos levaram, que apesar de não ter sido o mais agradável, foi o mais interessante.

Depois de nos metermos por umas vielas, entramos em uma casa de artigos de couro. Fomos subindo pela escada toda decorada com peças de couro de alto a baixo. Chegamos a um terraço com uma paisagem da medina muito boa, avistando os minaretes das mesquitas, os telhados amontoados das demais casas e ao fundo, a muralha de Fes. Apesar da bela vista, um cheiro horrível tomava conta. Era como cheiro de morte. Logo nos aproximamos da mureta e de lá vimos abaixo uma grande área com tanques ao ar livre cheios de líquidos de diferentes cores. Neste lugar o coro é curtido e colorido. Havia uns homens também amaciando as peças com pancadas. Era uma visão impressionante, algo como uma aquarela macabra!

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tinas para tratamento de couro

 

Aí foi o último lugar onde foi visto nosso companheiro Chico Poeira. Diz-se que o sagaz se enrabichou por uma cabra marroquina, não pôde suportar aquela cena de carnificina e decidiu fugir com a donzela caprina… Assim é a estrada: cada um segue seu próprio rumo ao seu próprio tempo.

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última aparição de Chico Poeira…

 

Quando já quase anoitecia, saímos e Mohamed nos levou para uma parte alta da cidade de onde apreciamos a vista da cidade enquanto o sol se punha. Nessa noite nosso rumo foi o Sahara, para onde tomamos um ônibus.

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