Depois dos mouros… ainda os mouros! 24 a 27 de Dezembro de 2012

Pela manhã cedo, antes de sairmos fomos ao terraço do prédio, de onde se podia ver o grande palácio da Alhambra e a Sierra Nevada. Nos despedimos dos irmãos e ainda conhecemos um terceiro irmão, que falava português, pois esteve no Brasil. Fomos ao centro e de lá tomamos um ônibus a Quéntar por €1.

Quéntar é um povoado pequenino, que se estende pelas encostas de um vale perto da Sierra Nevada. Íamos a uma comunidade que convive em uma casa, onde recebem hóspedes, como uma guest house. No nosso caso, estávamos via Couchsurfing. Havia por lá um outro casal de holandeses, com seu filho. O moleque também trazia um macaco como mascote, que chamava-se Apu. Naturalmente, se apaixonou pelo nosso Chico Poeira também… A comunidade tem como líder um alemão chamado Efendi e têm como filosofia algo que seria talvez uma mescla de sufismo, agora agregado com hinduísmo. Não entendi bem, mas parece que estão fazendo alguma transição de uma filosofia para outra.

Depois de nos acomodarmos, demos um passeio pela área com o pessoal que estava lá. Passamos por rios, colinas e ainda algumas árvores frutíferas, como caqui, membrillo e oliveira. Chegamos bem na véspera de Natal e tivemos uma bonita ceia naquela noite. Compartilhei uma guacamole com a rapazeada entre um tanto de outros pratos deliciosos.

No dia de Natal, fomos a Granada, com o objetivo de dar um rolé pela cidade e visitar a fortaleza moura da Alhambra. Fomos caminhando pelas ruas, apreciando a arquitetura da cidade, que ainda conta com muitos traços mouriscos. E não é a toa, pois este lugar foi o último bastião do Islam na Península Ibérica, até que o último califado foi derrotado pelas forças de Isabela, a Católica. Diz-se que ao entrarem triunfantes na cidade, os reis cristãos, Isabela e Fernando, estariam trajados como muçulmanos e teriam prometido o respeito a integridade de todos os muçulmanos habitantes de Granada, assim como o direito de continuarem vivendo ali. Tudo isso foi feito visando facilitar a rendição moura e não demorou muito até que os cristão voltassem atrás em sua palavra e começassem a perseguição sobre os mouros.

Fomos ver a catedral e seus arredores, antes de tomar o ônibus para a Alhambra. Na entrada, havia duas opções: enfrentar a fila enorme ou comprar na máquina com o cartão. Fomos na maquininha, claro! Adentramos as muralhas. Lá entre as torres da fortaleza, se pode ver as montanhas nevadas ao fundo, duas majestades disputando o domínio da paisagem, terminando por compor uma perfeita união. A fortaleza teria sido empreendida a partir do de meados do século XIII, pela dinastia Nasrida, que aí esteve instalada até a tomada da cidadela pelos cristãos em 1492. Primeiramente, os caminhos do jardim nos levam ao palácio de Carlos V, uma construção neoclássica incorporada posteriormente, no século XVI, ao conjunto pelo referido monarca. Poderíamos talvez chamá-la de imponente, não fosse os pesados blocos que são as torres remanescentes da construção original, vigilantes ao longo dos séculos e encarando a obra invasora e debochada apenas do outro lado do gramado. Mas talvez mais majestoso que as torres mouras é o que se esconde logo atrás da grande mansão ocidental. Uma família de muçulmanos, que esperava na fila para entrar na seção dos jardins e galerias mouriscasme fez imaginar, por uma fração de segundos, se já não estaria no Marrocos, nosso próximo destino. E na verdade, por mais várias frações de segundo, a impressão perdurou após cruzar os portões. Uma sucessão interminável de salões, corredores, aposentos, jardins meticulosamente trabalhados na mais fina arte mourisca, apenas ocasionalmente te deixam respirar quando passamos por algum pátio interno. Seja em mármore, seja em madeira, ou qual outro material, os arabescos vão enredando a geometria sagrada por todos os lados.

Atravessamos a fortaleza até o outro lado e por lá nos metemos pelo bairro Albaicín. Se trata de um bairro antigo, repleto de lojinhas de souvenir e casas de chá. Chegamos bema tempo de disfrutar um lindo crepúsculo lá de cima. Como se trata de um bairro alto, se pode ver a um lado a Alhambra de bem perto e ao outro lado, e mais ao fundo, a cidade, que se estende entrecortada pelas torres de suas igrejas. Passado o por do sol, o espetáculo não diminuiu, com surgimento de uma grande lua cheia. Ainda demos uma volta pela cidade antes de pegar o último ônibus de volta para Quentar.

No dia 26, fuimos com o pessoal da comunidade visitar um abrigo de ciganos na beira da estrada, um pouco mais além depois de Quentar. Era um conjunto de barracos, onde viveu um homem chamado San Manolo, que é tido como um santo pelos ciganos por seu dom em realizar milagres. Parece que não faz muito tempo que morreu e por todo local se vê retratos dele e outras imagens católicas. O que era seu aposento e agora lugar de adoração é uma choça bem simples e rústica, mas o que chama atenção mesmo é uma bica que está num pátio central entre as casas. É uma sucata de carro convertida em bica. Diz-se que San Manolo, apesar de uma pessoa extremamente simples e desprovida de luxos, curiosamente, tinha uma paixão particular por carros… na verdade, sequer sabia dirigi-los. Aparentemente, não fazia uso deles para transporte ou ostentação. Das muitas pessoas agraciadas por suas bençãos, algumas sabendo do pitoresca predileção de Manolo, lhe presenteavam com um calhambeque, com o qual o santo se deleitava pura e simplesmente em pedir que ligassem os motores, cujo ruído lhe encantava como se fora uma melodia.

Entramos em uma, que é onde se reuniam os ciganos de passagem pelo lugar. Ali ficamos conversando e compartilhando alguma comida. Aparentemente, os que ali estavam eram de uma família e todos bastante simpáticos. Ali, estando de coração aberto com eles em seu humilde lugar, não lembravam em nada a fama de gatunos, que geralmente lhes acompanha por toda Europa. Depois ainda fomos visitar a gruta onde ele faria suas meditações, no alto de uma rocha, onde chegamos por uma trilha e acompanhados de chuvinha de granizo de leve.

No dia 27, já preparamos a ida ao Marrocos. Fomos para Granada de carona e de lá pegamos um busão para Algeciras, que não tem nada de mais, mas seria mais econômico do que dormir na turística Tarifa, de onde pegaríamos o ferry para Marrocos.

Image

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s