Onde está o Popo?

Minha ida a Puebla foi, na verdade, só uma parada no caminho a Oaxaca. Além de ter ouvido da beleza da arquitetura da cidade, o principal motivo que me levou até lá foi uma foto que vi de uma igreja no alto de um morro, tendo ao fundo o grande vulcão Popocatepetl. A ideia era dar um rolé pela tarde e logo antes de anoitecer pegar o busão pra Oaxaca.

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Realmente a cidade é toda muito bonita (pelo menos na zona central) com ruas bem cuidadas e uma grande quantidade de prédios antigos preservados e em ótimo estado. A cidade difere bastante do ambiente caótico com que me havia acostumado a ver nas cidades por onde havia passado. Havia ouvido uma história de que Puebla seria uma espécie de zona neutra dentro da disputa entre os narcotraficantes mexicanos. O México é um país onde a família é muito valorizada e creio que isso possa ser uma razão pela qual mesmo os “narcos” tiveram esse tipo de preocupação. Diz-se que para lá enviam seus filhos para estudar e viver, onde podem estar livres de emboscadas de rivais e sem ter de viver a rotina de seus próprios familiares. Fico imaginando um narco daqueles bem barra pesada operando um cartel brabo lá pelas bandas de Sinaloa ou Chiuhuahua e mantendo uma filhinha bibelô-inocente estudando artes em Puebla…

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Além da arquitetura, outra grande atração de Puebla é a culnária com seu famoso mole poblano, que é um molho a base de pimenta, castanhas, cacau e uma quantidade de condimentos que pode variar de acordo com a preferência. Ele é uma das marcas da culinária mexicana e de fato já o havia provado antes de entrar no México.

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Finalmente me dirigi ao que mais visava nesta rápida passagem por Puebla: o povoado Cholula, onde se encontra a tal igreja no alto de um morro, com o vulcão ao fundo. Achei o morro, achei a igreja no alto dele, mas o maior de todos, o grandioso vulcão Popocatepetl (Popo, para os íntimos), não encontrei. Estava encoberto por nuvens e/ou cinzas… mas o interessante que descobri nesta visita é que o morro sobre o qual foi construída a igreja era na verdade uma elevação de terra que se formou sobre uma antiga pirâmide, já completamente oculta sob terra depositada pela natureza e as construções deixadas pelos invasores. Um interessante metáfora acidental da cultura latinoamericana.

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No manches, chilango! (parte 2)

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Depois de Teotihuacan, não acabou a exploração arqueológica! Sendo que agora não mais em campo, mas no grandioso Museu Nacional de Antropologia. Lá estão expostas relíquias arqueológicas da imensidão de povos que habitaram o México antes da chegada dos invasores europeus. Ali temos algumas das intrigantes cabeças olmecas (monolitos gigantes com forma de cabeças de feições negróides), o famoso “calendário asteca” (ou Pedra do Sol), a poderosa serpente emplumada Quetzalcoatl e Tlaloc, o deus da chuva. Também uma infinidade de artefatos utilizados no cotidiano dos habitantes do continente.

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O criador (este não deixou dúvidas quanto à sua missão!)

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O museu é gigantesco e precisa de pelo menos uns dois dias se quiser conhecê-lo em todas suas alas. Eu fui um dia só mesmo… vi pouco, mas o pouco que vi foi bastante! Mais adiante, ao longo da viagem, iria rever algumas daquelas figuras nos seus parques arqueológicos de origem.

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Dios Viejo

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Diosa Alimentadora

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bien dicho, carnal!

 

Seguindo o ritmo da exploração cultural, fui em busca dos costumes dos mexicanos e nada melhor que ir aos mercados populares para sentir o espírito deste povo. Há mercados de bruxarias, de comidas, quinquilharias, artesanatos e de tudo mais que se possa imaginar. Muitas cores, sabores e o ruído estridente característico do sotaque chilango (gentílico popularesco relativo aos naturais do DF). Entre as iguarias que se pode encontrar da exótica culinária mexicana temos, por exemplo, o chapulín! Sim, como nosso adorado herói da TV! E assim como ele, tem anteninhas também, pois se trata de um grilo! Meio esquisito, mas refletindo legal, na prática é o mesmo que comer um camarão (sendo que menos sujo).

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Chapulines, a huevo! jajaja

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Como já havia feito antes na viagem, organizei, por meio do Couchsurfing, um encontro gastronômico. E que melhor lugar para se organizar um encontro com comida! No site, fiz a proposta e perguntei se alguém poderia hospedar o encontro. Logo de cara surgiram umas três propostas, as quais tive de submeter a votação. Terminou se decidindo por Coyoacán, um bairro com um certo charme alternativo, onde inclusive está localizada a casa de Frida Kahlo.

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O encontro bombou e deu por volta de umas 40 pessoas, a maioria delas apresentandoalgum prato. Minha contribuição foi com a nossa conterrânea a tapioca! Achei num mercado popular um polvilho tailandês (!), que serviu maravilhosamente. Fiz uma rodada de salgada recheada com huitlacoche (fungo que dá no milho) e vegetais que fez os mexicanos pedirem arrego pelo toque picante. Considerando a fama dos mexicanos com relação ao gosto pela pimentinha, dei uma caprichada, mas acho que foi demais pra moçada… depois entrei com uma rodada de doce recheada com queijo e goiabada, só que quando o povo achou que ia se refrescar, aí que se danaram, porque também tinha o tal do “mole” no recheio. Mole é um tempero famoso no México, composto por PIMENTA, cacau, castanha, banana, etc…coitados! E isso por que os chilangos são assim conhecidos, segundo me contaram, por serem inveterados comedores de chili (pimenta)! No manches, chilango!
[“no manches” é uma expressão com vários significados possíveis, sendo aqui “fala sério!”]

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Além das comidinhas, ainda rolou muita dança e com o sucesso, ainda organizamos mais um evento, só que este outro de dança. Um pessoal de uma escola de dança cedeu o espaço deles e ofereceram uma aula grátis e depois da aula, fomos para um bar cubano para “salsear”!

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Antes de deixar a capital, ainda fui a Tepoztlán, uma cidadezinha localizada, mais ou menos próxima ao DF, no estado de Morelos. É um povoado bem tradicional, rodeado por belas montanhas. Fui para lá com uma amiga britânica que conheci no DF. Em Tepoztlán, conhecemos as famosas tepoznieves, sorvetes exóticos que eles fazem por lá. Apesar de já acostumado com a aleatoriedade gastronômica dos mexicanos, consegui me surpreender com os sabores oferecidos. Acho que só faltavam mesmo os sabores churrasco e pizza…

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Mas o principal motivo que levou até ali foi visitar o parque arqueológico. É uma trilha através de desfiladeiros que nos levam ao topo de umas montanhas, onde se encontra uma pirâmide. Ela é bem pequena se comparada com a colossal Pirâmide do Sol, por exemplo, mas o que impressiona ali é o conjunto da obra. A paisagem, o caminho até lá e todo o ambiente de muita natureza… até demais! Pois incluía uns quatis atentados que estavam cercando nossos pertences. Avisei minha amiga para cuidar bem de sua mochila, pois já conhecia bem esse tipo de gatuno. Mas não adiantou muito, pois ela deixou a mochila aberta e os malandros levaram a sacola com o rango dela… ainda tentei correr atrás, mas a rota de fuga deles era boa!

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Depois de umas duas semanas e meia na Chilangolândia, segui meu caminho. Fui rumo a Oaxaca, mas antes dei uma breve paradinha em Puebla.

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o anjo estradeiro

 

No manches, chilango! (parte 1)

Ao chegar ao DF (Distrito Federal, como é mais conhecido por lá a Cidade do México), sai da rodoviária direto para o metrô. Depois do primeiro estranhamento que foi o de pagar algo equivalente a 50 centavos de real por um bilhete, comecei a sentir uma dificuldade em respirar. Apesar de que minha carga era bem pesada (quase 30 Kg), já estava acostumado. Foi então que me dei conta de que a cidade é bem alta (2250m). Foi interessante passar por aquele monte de estações com nomes mexicas. Também curioso o movimento de vendedores pelos vagões, o que me fez lembrar da muvuca de nosso trem suburbano carioca. Só que um pouco além daquilo com que estamos acostumados… tipo homens se jogando em cacos de vidros e declarando ao público que não deixem seus filhos se perderem nas drogas para não ficarem como eles. Doideira!

 

Desci na estação Patriotismo, pois estava indo para a colônia Escandón (colônia é como chamam os bairros), onde iria ficar na casa de minha amiga Nataly. Ela mora lá com seu namorado Rafael e seu canino Gandhi. Nos conhecemos no Rio tempos antes e agora nos reencontramos na sua terra. Uma das primeiras coisas que fiz foi fazer uma visita ao mercadinho popular do bairro. Já aproveitei pra comprar umas frutas e legumes e na volta paramos num restaurantezinho tipo boteco pra comer uns pratos locais.

 

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El angel

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Monumento a Cuauhtemoc

 

Minha primeira exploração foi, no dia seguinte à minha chegada, indo ao centro da cidade. Decidi percorrer todo o Paseo de la Reforma, a principal avenida da cidade. Ela é toda pontuada por muitos monumentos. Alguns deles centrais e imponentes, enquanto que outros, sutis e excêntricos, espalhados por suas beiradas. Um destaque para mim foi o monumento a Cuauhtemoc, o último imperador mexica, capturado e assassinado pelo espanhol Hernán Cortes. No monumento, é possível ver cenas de sua tortura pelos invasores.

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No final da travessia, encontrei uma praça onde está o Museu de Belas Artes. Por fora, ele tem uma cúpula alaranjada, que, tirando a cor, se assemelha um bocado com a do Teatro Municipal do Rio de Janeiro (e de fato ele foi construído na mesma época deste), sendo que a arquitetura em geral difere do carioca pela predominância do estilo art decó, ainda que também tenha bastantes traços neoclássicos. Por dentro, chama atenção a influência de padrões indígenas nas paredes. Há uma exposição permanente dos famosos murais de Diego Rivera e David Siqueiros. Um dos murais mais famosos é um feito por encomenda pela família Rockfeller a Rivera. O detalhe é que os Rockfeller, grandes capitalistas, fizeram a encomenda a Rivera, um famoso artista da época, porém também um comunista e notório por sua militância política na arte. De fato, Rivera não deixou passar a oportunidade e registrou o tema da luta de classes no mural e para tanto, ilustrou capitalistas mafiosos (entre eles, o próprio John Rockfeller!) confrontados por trabalhadores liderados por Lenin empunhando a bandeira vermelha. Não preciso dizer que os clientes não curtiram nem um pouco o que receberam, de forma que mandaram destruir a obra. O que está exposto no museu foi uma reconstituição feita pelo próprio Rivera.

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Bellas Artes

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Seguindo a rota, mais adiante me deparei com o Zócalo, a praça central onde se encontram as principais construções da capital, como a catedral e o Palácio Nacional. A praça é uma das maiores do mundo e ao centro há uma bandeira mexicana gigantesca que é hasteada todos os dias. Antes da invasão espanhola, a praça foi também o centro de Tenochtitlan (como era conhecida a capital do Império Azteca, hoje ocupada pelo Distrito Federal). Havia edifícios dos centros de poder da época e importantes espaços cerimoniais, entre os quais o Templo Mayor, do qual apenas restam ruínas que fazem parte de uma zona arqueológica.

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O Zócalo é também uma área marcada por uma tradição de grandes protestos ocorrendo ali. Um dos mais memoráveis foi o ocorrido em 1968, quando, na abertura dos Jogos Olímpicos que foi sediado na capital mexicana, a população tomou a praça num grande protesto. Já esperando por isso e visando dispersar completamente o movimento, o governo alocou atiradores de elite no alto dos prédios ao redor da praça e deu início a uma matança que dizimou centenas de cidadãos.

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Teotihuacán

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Tlaloc e Quetzalcoatl

 

Apesar dos Aztecas terem sido os responsáveis pela edificação de Tenochtitlán, há nas cercanias da Cidade do México o parque arqueológico que abriga as ruínas da talvez maior cidade das Américas na época pré-colombiana: Teotihuacan. Na verdade, estima-se que em seu auge foi uma das maiores do mundo. Apesar de estar situada na região onde dominou o Império Azteca, este só se estabeleceu na área quando Teotihuacán já havia há muito tempo desaparecido. Lá se encontra a segunda maior pirâmide do México, a Pirâmide do Sol. Outra construção imponente do parque é a Pirâmide da Lua, um pouco menor que aquela.

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Calzada de los Muertos

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Piramide del Sol

 

No parque, há muitos vendedores de artesanato e foi lá que tive meu primeiro contato com os artefatos de obsidiana, mineral de origem vulcânica muito abundante no país. Era um dos minerais mais usados pelos povos desta parte do continente, sendo empregado especialmente como artigo bélico, já que se faz com ela uma lâmina extremamente cortante e resistente. Por assim dizer, os espanhóis precisaram de algo mais que aço e cavalaria para passar por cima dessa galera…

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El jaguar

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Ilha? Praia? Caverna? Base galáctica!

Outra coisa que queria fazer na região de Nayarit (e na verdade, foi o que me levou para lá) era fazer um passeio até as chamadas Islas Marietas. Susana, minha anfitriã em Bucerías, que também já trabalhou de guia nessa área, me ajudou com os contatos com uma agência de Punta de Mita, lugar de onde saem os barcos rumo ao arquipélago. Lá fiquei esperando chegarem outros clientes para poder formar o passeio. Daí os caras da agências decidiram me oferecer uma prancha de stand (tudo 0800) pra passar o tempo. Lá fui eu pro mar. Fiquei remando e remando até que decidi me estirar e fazer um yoga em cima da prancha. Fiquei lá contemplando os pelicanos e gaivotas sobrevoando. Até que voltei ao mundo lentamente fui percebendo que já havia sido levado para bem longe da praia… já estava depois do último barco ancorado e podia ver pelo cata-vento na sua proa que o vento era um terral frenético. Comecei a remar, mas o máximo que conseguia era manter a mesma distância com relação ao barco. Assim fiquei por uns quinze minutos, até que avistei ao longe um barco voltando do alto-mar e então levantei os remos e comecei a sinalizar.

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Punta de Mita

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maryogando!

O barco se voltou em minha direção e me abordou. Eram pescadores e me ajudaram a entrar no barco. Me deixaram perto da praia e ali fiquei, até que o barco do passeio surgiu enquanto remava de volta para a areia. Ali já me subiram pro barco com prancha e tudo e seguimos para as ilhas.

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operação resgate…

 

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portal para o paraíso

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paraíso

Na verdade, a grande atração do arquipélago é uma das ilhas que possui uma praia DENTRO dela, numa espécie de gruta com uma abertura gigante no teto. Uma coisa impressionante! A entrada é por uma pequena entrada numa das paredes de pedra, por onde vamos nadando num pequeno túnel. Como levei minha câmera e ela era à prova d´água, consegui registrar tudo lá dentro.

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Depois ainda demos um rolé ao redor da ilha, onde vimos pássaros de diversas espécies e demos uns mergulhos com snorkel. Na volta ao continente, ainda topamos com uma baleia dando suas piruetas!

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Meu próximo destino seria a loucura metropolitana da Cidade do México, o famoso DF. Então voltei a Vallarta, para de lá seguir para a capital.

 

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O Pacífico norte mexicano

Meu destino era Bucerías, mas para chegar lá teria de passar por Puerto Vallarta, um balneário muito turístico. Em Bucerías, ficaria hospedado pelo Couchsurfing e de lá depois iria para Sayulita. Fiquei na casa de Susana, que lá morava com sua mãe Sandra e sua filha Edme.

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Bucerías é também um balneário, mas muito tranquilo. Não chega a ser também um povoadinho, mas uma pequena cidade, onde predomina um ambiente de descanso para terceira-idade. O Oceano Pacífico com suas águas escuras, costuradas por revoadas de pelicanos em sua pescaria rotineira, era o cenário típico daquela região. Ali se pode passear tranquilamente sem as badalações de balneários agitados.

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Um acontecimento engraçado foi num dia em que fui tomar banho de mar e ao sair da água, encontrei um nativo enterrando um grande baiacu na areia. Vendo aquela cena, parei a seu lado, me agachei e comentei: “Que gran pez globo, ahn?” O cara, que tava compenetrado em sua missão, se voltou para mim, mas logo desviou o olhar e se concentrou mais ainda na tarefa. Achei esquisito, mas depois de um instante, verifiquei que estava trajando uma sunga, que nas nossas praias brasileiras são tão comuns, mas lá só são trajadas por gays… ou viajantes brasileiros incautos ou ousados.

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Além de meus passeios solitários, fui à praia também com a alegre companhia de Susana e Edme. Lá tomamos água de coco e comemos manga com pimenta (!). Sou pimenteiro nato, mas essa galera pira nessa história… Numa outra ocasião, ainda fui com Susana até Sayulita dar um rolezinho na praia. O lugar é menor que Bucerías e tem mais uma vibe de balneário alternativo para surfistas e outras tribos de jovens. As praias são mais bonitas e tem boas ondas.

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Naquele dia só somos visitar Sayulita, mas depois voltei e pra ficar por lá uns dias. Consegui inclusive hospedagem pelo Couchsurfing com um canadense que tava passando um tempo por lá. Seu nome é John e alugava uma casinha por alguns meses. Um grande figura também vagando pelo mundo. Ficamos de rolé pelo agradável povoado durante alguns dias. Lá descobri que no México também tem jaca! Apesar de que depois descobri que também só tinha mesmo por aquela região…

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Em outra ocasião, fui novamente testado quanto aos meus costumes. Resolvemos ir à praia de rolé. Mas quando comecei a vestir a sunga (dessa vez não estava mais sendo incauto quanto aos costumes locais, mas ousado), John logo ficou constrangido e foi dizendo que não iria comigo se fosse usar aquilo… achei engraçado e ainda dei uma zoada, mas o cabra realmente estava preocupado com aquilo. Então deixa a idéia da sunga de lado e vesti minha bermudinha tactel mesmo.

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Um Jardim no deserto – 19 a 20 de Fevereiro de 2013

Cheguei a San Luis Potosi logo no fim da manhã e fui entrar em contato com minha anfitriã na cidade. Quando havia feito comentários no grupo da cidade no site Couchsurfing, recebi dois convites. Aceitei o de uma menina chamada Glória. Combinamos de nos encontrar no centro, pois ela estuda por lá, mas como ela iria demorar um pouco mais, pedi para que guardassem minha mochila num restaurante e fui dar um rolé no centro histórico.

Juan del Jarro

Juan del Jarro

Comecei visitando umas igrejas. Fui primeiro na Igreja del Carmen, um belo exemplo de barroco espanhol, com grande complexidade e extravagäncia em toda a ornamenteção. Não é tão denso quanto alguns exemplos mais representativos do barroco brasileiro, mas ainda assim toda a trama de arabescos é bem intrincada. E outro traço muito interessante é a presença de elementos ornamentais de origem ameríndia na decoração tanto do interior como da fachada. Outra igreja onde entrei foi o Templo de San Agustín. O interior deste tinha mais influências rococó, mas também com muitos traços do barroco. Aliás, uma marca interessante deste tipo de barroco hispânico que encontramos no México é o colorido das fachadas, que são muito mais ousadas do que as que encontramos aqui no Brasil, com o padrão tradicional de cantaria e reboco. A grande maioria das igrejas que vi pela cidade apresentam muitas cores fortes, como vermelho e amarelo.

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Templo de San Agustín

Templo de San Agustín

Continuei o rolé pelas ruas marcadas pelo casario predominantemente de estilo colonial espanhol (umas paradas tipo filmes do Zorro), mas também com algo de neoclássico. Outro ponto bem interessante é a Calzada Guadalupe. A Calzada, ao contrário do que possa parecer para nós, lusófonos, não é uma calçada, mas uma espécie de boulevard. Ao longo dela há vários monumentos, com destaque para algumas estátuas em homenagem a figuras típicas do passado colonial da cidade, como é o caso do “aguadero” (pessoas que traziam os jarros com água que abasteciam a cidade). A Calzada termina de frente para imponente Basílica Menor de Guadalupe.

Calzada Guadalupe

Calzada Guadalupe

Basílica de Guadalupe

Basílica de Guadalupe

E como falamos em água, é bom lembrar que San Luis está localizada no centro do México, em uma zona bem árida. Inclusive próximo à cidade se encontra o conhecido povoado Real de Catorce, situado num deserto. O lugar já um dos maiores focos de exploração de metais preciosos nos tempos da colônia na América Espanhola, mas hoje é conhecido pelos rituais com peyote (uma planta de poder, um cactus com propriedades alucinógenas), ministrados por xamãs. Não cheguei a visitar esse povoado dessa vez… quem sabe na próxima!

Parque Tangananga

Parque Tangananga

Encontrei com Gloria mais tarde e fomos para sua casa, que divide com uma amiga. Preparei uma janta e conversamos até dar sono. No dia seguinte, bem de manhã cedo fui ao Parque Tangananga, que fica bem ao lado da casa. É o segundo maior parque urbano do México, com vastos gramados e uma grande rede de caminhos por entre o bosque.

Centro de Artes de San Luis Potosi

Centro de Artes de San Luis Potosi

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À tarde voltei ao centro, onde visitei mais algumas igrejas e continuei a exploração pelas ruas do centro histórico. Parei na Plaza Aranzazu, onde consegui wi-fi gratuito. Aliás, a plaza vale a pena ser visitada por muito mais que a internet grátis! Voltei ainda á Calzada Guadalupe, onde visitei o Centro de Artes de San Luis Potosi, um grande espaço com obras surrealistas e de estilo contemporâneo espalhadas por todos lados.

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À noite mesmo tomei um ônibus para Puerto Vallarta, de onde iria para os povoados praianos de Bucerias e Sayulita.

Que viva Mexico, cabrones! 15 a 18 de Fevereiro de 2013

Saindo de madrugada de Austin, só fomos chegar à fronteira de Laredo de manhãzinha. E aqui já começaram minhas peripécias em terras mexicanas. Bem na fronteira, como viria confirmar ao longo da viagem pelo continente que essas desventuras eram sinal de que o lugar seria bom! Ainda meio que sonolento, comecei a ver guardas pelo caminho e presumi que já estávamos chegando às aduana estadunidense, mas qual não foi minha surpresa quando me deparo com um escritório ostentando a alegre bandeira mexicana. Imediatamente me dirigi ao motorista perguntando por que não paramos na outra aduana para dar baixa nos passaportes, ao que ele me respondeu que todos ali eram mexicanos e ele achou que eu também era. Falei que ele não tinha de advinhar nada, mas sim perguntar aos passageiros se precisavam resolver algo na aduana antes de cruzar. Ele se desculpou, mas quando cobrei uma solução, disse que eu deveria ir ao outro lado dar baixa, mas que deveria esperar o próximo carro, pois ele não poderia esperar. Aí começou a confusão pois comecei a exigir que ele me esperasse, pois a responsabilidade era única e exclusivamente dele, de forma que eu jamais iria pagar por um erro que não era meu. Ele ainda tentou resistir, mas no final teve de ceder e me esperar lá enquanto passei ao outro lado por uma pontezinha e entreguei meu carnê ao oficial da aduana. Regressei, fiz os procedimentos na aduana mexicana e voltei ao ônibus rumo a Monterrey. Um fato que vale ressaltar é que a preocupação com os pertences ao entrar no país (ao contrário do caminho inverso) é nula e o mesmo com relação ao visto. De fato, o México exige umvisto com critérios bem estritos, mas isso só é importante se você vem de algum, o outro país que não os EUA, pois neste caso você tem ou um visto, ou um passaporte estadunidense, o que é mais do que suficiente para você entrar no país sem necessidade de mais nada… pelo termômetro de soberania nacional, agora já estava mais do que claro que estava de volta à minha sofrida América Latina.

Na rodoviária de Monterrey apenas desembarquei, comprei um chip pro celular (quando você viaja usando couchsurfing, um celular é bem útil) e fui comprar as passagens para Tampico. Pouco depois de ter feito a compra, vi um grupo de mariachis entrando no terminal e parando em frente ao guichê onde havia comprado a passagem. Um rapaz se aproximou junto com a banda e a atendente levou as mãos ao rosto emocionada. Conforme a tradição, ela saiu de onde estava e foi até o rapaz, que se ajoelhou e creio eu, lhe pediu em casamento ou algo do gênero. A empolgação da banda não me permitiu prestar mais atenção à maioria dos detalhes do ritual cavalheiresco. Só percebi que ele continuava trincado de joelhos e ela, com cara de manteiga derretida. Fiquei grato pelo bom entretenimento, enquanto esperava a hora do busão.

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Pole dance em Tampico

Agora estava a caminho de Tampico, cidade situada no Golfo do México, onde faria escala rumo a San Luis Potosi no interior do país. Consegui ser aceito no couchsurfing por um camarada chamado Hector. Do centro tomei um ônibus à sua casa. Ele morava com o pai e um irmão. Ele me levou às aulas de pole de dance, que era um negócio que ele estava iniciando. Ele não tinha muita intimidade ou até afinidade com a coisa, mas sim um bom tino para negócios. Aproveitou que a coisa está na moda, contratou um amigo dançarino (que nunca tinha feito o pole dance em si), passou-lhe material a respeito para que se capacitasse e estava feito. Apesar de não ser muito entendido no assunto a aula me pareceu boa! Saímos na noite para um “antro” (é como chamam discoteca por lá) e na volta pra casa, novamente demonstrou sua capacidade nata de improvisação e de despertar talentos adormecidos. Ele estava bêbado e tínhamos vindo na sua pick-up. Como percebeu que eu não havia ingerido álcool, perguntou se sabia dirigir. Respondi que não tinha habilitação e tinha apenas alguma noção de direção. Isso foi suficiente para me delegar o volante! Achei meio doida a idéia, já que aquilo era uma pick-up e eu estava acostumado com minha bicicleta, mas achei o desafio interessante. Assim chegamos em casa.

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Plaza de Armas

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Apesar de Tampico não ser uma cidade turística, possui lá seus encantos. No centro da cidade, possuem algumas ruas com casario de estilo neoclássico francês, que me lembrou alguns edifícios que vi em New Orleans. O traço mais marcante eram as varandas com gradil metálico com molduras diversas. Na Plaza de Armas, chama atenção um coreto no formato de um polvo, ladeado por pilares curvos que lembram os tentáculos do molusco. Além de ter sido uma das cidades mais importantes do país na primeira metade do século XX, foi lá que os mexicanos derrotaram definitivamene a tentativa espanhola de retomar o país em 1829.

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Homenagem aos mártires da Batalha de Tampico, contra os espanhóis

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Lá também me encontrei com Val, amiga de uma amiga. Ela me levou a conhecer alguns outros pontos da cidade, como alguns parques e a Laguna del Carpintero, onde nadam crocodilos de monte. Dizem mesmo que já mataram algumas pessoas, como mendigos, que descuidadamente aventuraram-se a dormir perto das margens da lagoa, que inclusive é cercada justamente para evitar esses encontros indesejáveis.

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Laguna del Carpintero

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Minha idéia era seguir para a costa do Pacífico, onde entre outras coisas queria ver as Islas Marietas. Mas iria fazer uma parada San Luis Potosí, uma cidade situada no deserto, no centro do país. Depois de um par de dias em Tampico, tomei um ônibus para San Luis.

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