Um Jardim no deserto – 19 a 20 de Fevereiro de 2013

Cheguei a San Luis Potosi logo no fim da manhã e fui entrar em contato com minha anfitriã na cidade. Quando havia feito comentários no grupo da cidade no site Couchsurfing, recebi dois convites. Aceitei o de uma menina chamada Glória. Combinamos de nos encontrar no centro, pois ela estuda por lá, mas como ela iria demorar um pouco mais, pedi para que guardassem minha mochila num restaurante e fui dar um rolé no centro histórico.

Juan del Jarro

Juan del Jarro

Comecei visitando umas igrejas. Fui primeiro na Igreja del Carmen, um belo exemplo de barroco espanhol, com grande complexidade e extravagäncia em toda a ornamenteção. Não é tão denso quanto alguns exemplos mais representativos do barroco brasileiro, mas ainda assim toda a trama de arabescos é bem intrincada. E outro traço muito interessante é a presença de elementos ornamentais de origem ameríndia na decoração tanto do interior como da fachada. Outra igreja onde entrei foi o Templo de San Agustín. O interior deste tinha mais influências rococó, mas também com muitos traços do barroco. Aliás, uma marca interessante deste tipo de barroco hispânico que encontramos no México é o colorido das fachadas, que são muito mais ousadas do que as que encontramos aqui no Brasil, com o padrão tradicional de cantaria e reboco. A grande maioria das igrejas que vi pela cidade apresentam muitas cores fortes, como vermelho e amarelo.

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Templo de San Agustín

Templo de San Agustín

Continuei o rolé pelas ruas marcadas pelo casario predominantemente de estilo colonial espanhol (umas paradas tipo filmes do Zorro), mas também com algo de neoclássico. Outro ponto bem interessante é a Calzada Guadalupe. A Calzada, ao contrário do que possa parecer para nós, lusófonos, não é uma calçada, mas uma espécie de boulevard. Ao longo dela há vários monumentos, com destaque para algumas estátuas em homenagem a figuras típicas do passado colonial da cidade, como é o caso do “aguadero” (pessoas que traziam os jarros com água que abasteciam a cidade). A Calzada termina de frente para imponente Basílica Menor de Guadalupe.

Calzada Guadalupe

Calzada Guadalupe

Basílica de Guadalupe

Basílica de Guadalupe

E como falamos em água, é bom lembrar que San Luis está localizada no centro do México, em uma zona bem árida. Inclusive próximo à cidade se encontra o conhecido povoado Real de Catorce, situado num deserto. O lugar já um dos maiores focos de exploração de metais preciosos nos tempos da colônia na América Espanhola, mas hoje é conhecido pelos rituais com peyote (uma planta de poder, um cactus com propriedades alucinógenas), ministrados por xamãs. Não cheguei a visitar esse povoado dessa vez… quem sabe na próxima!

Parque Tangananga

Parque Tangananga

Encontrei com Gloria mais tarde e fomos para sua casa, que divide com uma amiga. Preparei uma janta e conversamos até dar sono. No dia seguinte, bem de manhã cedo fui ao Parque Tangananga, que fica bem ao lado da casa. É o segundo maior parque urbano do México, com vastos gramados e uma grande rede de caminhos por entre o bosque.

Centro de Artes de San Luis Potosi

Centro de Artes de San Luis Potosi

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À tarde voltei ao centro, onde visitei mais algumas igrejas e continuei a exploração pelas ruas do centro histórico. Parei na Plaza Aranzazu, onde consegui wi-fi gratuito. Aliás, a plaza vale a pena ser visitada por muito mais que a internet grátis! Voltei ainda á Calzada Guadalupe, onde visitei o Centro de Artes de San Luis Potosi, um grande espaço com obras surrealistas e de estilo contemporâneo espalhadas por todos lados.

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À noite mesmo tomei um ônibus para Puerto Vallarta, de onde iria para os povoados praianos de Bucerias e Sayulita.

Que viva Mexico, cabrones! 15 a 18 de Fevereiro de 2013

Saindo de madrugada de Austin, só fomos chegar à fronteira de Laredo de manhãzinha. E aqui já começaram minhas peripécias em terras mexicanas. Bem na fronteira, como viria confirmar ao longo da viagem pelo continente que essas desventuras eram sinal de que o lugar seria bom! Ainda meio que sonolento, comecei a ver guardas pelo caminho e presumi que já estávamos chegando às aduana estadunidense, mas qual não foi minha surpresa quando me deparo com um escritório ostentando a alegre bandeira mexicana. Imediatamente me dirigi ao motorista perguntando por que não paramos na outra aduana para dar baixa nos passaportes, ao que ele me respondeu que todos ali eram mexicanos e ele achou que eu também era. Falei que ele não tinha de advinhar nada, mas sim perguntar aos passageiros se precisavam resolver algo na aduana antes de cruzar. Ele se desculpou, mas quando cobrei uma solução, disse que eu deveria ir ao outro lado dar baixa, mas que deveria esperar o próximo carro, pois ele não poderia esperar. Aí começou a confusão pois comecei a exigir que ele me esperasse, pois a responsabilidade era única e exclusivamente dele, de forma que eu jamais iria pagar por um erro que não era meu. Ele ainda tentou resistir, mas no final teve de ceder e me esperar lá enquanto passei ao outro lado por uma pontezinha e entreguei meu carnê ao oficial da aduana. Regressei, fiz os procedimentos na aduana mexicana e voltei ao ônibus rumo a Monterrey. Um fato que vale ressaltar é que a preocupação com os pertences ao entrar no país (ao contrário do caminho inverso) é nula e o mesmo com relação ao visto. De fato, o México exige umvisto com critérios bem estritos, mas isso só é importante se você vem de algum, o outro país que não os EUA, pois neste caso você tem ou um visto, ou um passaporte estadunidense, o que é mais do que suficiente para você entrar no país sem necessidade de mais nada… pelo termômetro de soberania nacional, agora já estava mais do que claro que estava de volta à minha sofrida América Latina.

Na rodoviária de Monterrey apenas desembarquei, comprei um chip pro celular (quando você viaja usando couchsurfing, um celular é bem útil) e fui comprar as passagens para Tampico. Pouco depois de ter feito a compra, vi um grupo de mariachis entrando no terminal e parando em frente ao guichê onde havia comprado a passagem. Um rapaz se aproximou junto com a banda e a atendente levou as mãos ao rosto emocionada. Conforme a tradição, ela saiu de onde estava e foi até o rapaz, que se ajoelhou e creio eu, lhe pediu em casamento ou algo do gênero. A empolgação da banda não me permitiu prestar mais atenção à maioria dos detalhes do ritual cavalheiresco. Só percebi que ele continuava trincado de joelhos e ela, com cara de manteiga derretida. Fiquei grato pelo bom entretenimento, enquanto esperava a hora do busão.

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Pole dance em Tampico

Agora estava a caminho de Tampico, cidade situada no Golfo do México, onde faria escala rumo a San Luis Potosi no interior do país. Consegui ser aceito no couchsurfing por um camarada chamado Hector. Do centro tomei um ônibus à sua casa. Ele morava com o pai e um irmão. Ele me levou às aulas de pole de dance, que era um negócio que ele estava iniciando. Ele não tinha muita intimidade ou até afinidade com a coisa, mas sim um bom tino para negócios. Aproveitou que a coisa está na moda, contratou um amigo dançarino (que nunca tinha feito o pole dance em si), passou-lhe material a respeito para que se capacitasse e estava feito. Apesar de não ser muito entendido no assunto a aula me pareceu boa! Saímos na noite para um “antro” (é como chamam discoteca por lá) e na volta pra casa, novamente demonstrou sua capacidade nata de improvisação e de despertar talentos adormecidos. Ele estava bêbado e tínhamos vindo na sua pick-up. Como percebeu que eu não havia ingerido álcool, perguntou se sabia dirigir. Respondi que não tinha habilitação e tinha apenas alguma noção de direção. Isso foi suficiente para me delegar o volante! Achei meio doida a idéia, já que aquilo era uma pick-up e eu estava acostumado com minha bicicleta, mas achei o desafio interessante. Assim chegamos em casa.

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Plaza de Armas

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Apesar de Tampico não ser uma cidade turística, possui lá seus encantos. No centro da cidade, possuem algumas ruas com casario de estilo neoclássico francês, que me lembrou alguns edifícios que vi em New Orleans. O traço mais marcante eram as varandas com gradil metálico com molduras diversas. Na Plaza de Armas, chama atenção um coreto no formato de um polvo, ladeado por pilares curvos que lembram os tentáculos do molusco. Além de ter sido uma das cidades mais importantes do país na primeira metade do século XX, foi lá que os mexicanos derrotaram definitivamene a tentativa espanhola de retomar o país em 1829.

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Homenagem aos mártires da Batalha de Tampico, contra os espanhóis

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Lá também me encontrei com Val, amiga de uma amiga. Ela me levou a conhecer alguns outros pontos da cidade, como alguns parques e a Laguna del Carpintero, onde nadam crocodilos de monte. Dizem mesmo que já mataram algumas pessoas, como mendigos, que descuidadamente aventuraram-se a dormir perto das margens da lagoa, que inclusive é cercada justamente para evitar esses encontros indesejáveis.

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Laguna del Carpintero

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Minha idéia era seguir para a costa do Pacífico, onde entre outras coisas queria ver as Islas Marietas. Mas iria fazer uma parada San Luis Potosí, uma cidade situada no deserto, no centro do país. Depois de um par de dias em Tampico, tomei um ônibus para San Luis.

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Oásis em meio à terra dos cowboys – 7 a 15 de Fevereiro de 2013

Cheguei ao aeroporto de Austin tarde da noite. Usei a wi-fi e pesquisei as acomodações na cidade. Meu plano era dar uma olhadinha rápida na cidade e já atravessar a fronteira pro México. Como a decisão tinha sido meio em cima da hora, nem tinha pensado em usar o couchsurfing. A coisa é que quando vi os preços me assustei e então decidi dormir no aeroporto mesmo. O último ônibus já havia saído e fui ajeitando os bancos pra deixar a caminha mais confortável. Entrei no couchsurfing e deixei uma mensagem no grupo local pra ver se tinha alguém a fim de dar um rolé pela cidade no dia seguinte. Para minha surpresa, recebi uma resposta e era de Troy, um camarada que conheci emum evento que organizei pelo CS no Rio de Janeiro. Sabia que ele era dos EUA, mas não me lembrava que era especificamente de Austin. Ele perguntou onde estava ficando e quando soube que estava dormindo no aeroporto, fez questão de ir me buscar. Por isso eu digo que mochilar dá sorte!

A casa do Troy fica num subúrbio residencial (apesar de não tão inóspito como o que encarei em San Francisco), mas havia acesso fácil a ônibus e ele ainda me emprestou sua bicicleta. Lá, assim como em San Francisco, é possível levar a bike no ônibus, num hack na dianteira do busão com capacidade para umas três bicicletas. Dei uma explorada pela região pedalando e era bem agradável o lugar, bem arborizado. Vi muitos esquilos e até um sorrateiro guaxinim.

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Barton Creek

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Colméia

Já tinha até me esquecido do chamado que tinha deixado na página de Austin no Couchsurfing (não estava acessando muito a internet), mas Troy me avisou que uns caras de Oklahoma tinham respondido. Eles se chamavam John e Samuel. Marcamos de no dia seguinte ir num parque natural chamado Barton Creek Greenbelt. O parque consistia basicamente de uma faixa arborizada às margens de um rio. É uma paisagem bem bonita, apesar de que o rio estivesse seco na maior parte dele (não sei se por algum desequilíbrio ecológico ou alguma sazonalidade natural do próprio rio) . Na verdade, aquele cenário árido de pedras queimando ao sol tinha também sua beleza. O rio seco desnudava formações rochosas interessantes esculpidas pelo ação da correnteza. À medida que fomos descendo pelo leito, a água começou a surgir em algumas grandes poças e logo depois em curso regular. E com a água, também surgiam as pessoas.

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Chicken shit bingo

No site do CS, o pessoal de lá combinou de se encontrar num evento chamado Chicken Shit Bingo (Bingo de Cocô de Galinha). Era um bar com música ao vivo e a galera, de vez em quando, se aglomerava num dos cantos do salão em volta de uma mesa coberta por um gradil com uma galinha dentro. A superfície da mesa era dividida em quadradinhos numerados, bem como uma grande cartela de bingo. A galinha era alimentada e daí ficava perambulando na gaiola e onde cagasse, era o número a ser marcado por cada jogador. Fiquei imaginando se eles não tinham que dar algum tipo de laxante pro bicho cagar tanto…

Yippee Ki Yay Cabaret

Yippee Ki Yay Cabaret

Demorei pra achar a galera, mas consegui. Depois de lá, fui convidado pela Barbara para ir a um show chamado Yippee Ki Yay Cabaret, uma espécie de musical western com “efeitos especiais” feitos de sombras e outros recursos propositalmente toscos. No meio da peça, ainda faziam alguns malabarismos e outras coisas. A parada era muito engraçada, muito bom mesmo!

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the king of junk

the king of junk

No dia seguinte, fomos à chamada Cathedral of Junk, uma espécie de castelo feito somente por ferro velho. Garrafas, torres de computador, brinquedos, discos, peças de bicicleta, placas, etc. A catedral fica bem no quintal do seu autor em meio a outras obras feitas também com lixo. No jardim à entrada da casa há uma representação das Torres Gêmeas feitas de engradados de cerveja. Os topos das torres são ligados por um barbante e neste um bonequinho, representando o equilibrista que havia se aventurado clandestinamente na travessia entre as torres verdadeiras (quando ainda estavam de pé), na década de 1970. Depois de lá ainda fomos ao Zilker Park com a companhia da simpática cadela Karima, mascote de Bárbara.

Outra pessoa também respondeu meu chamado no Couchsurfing, uma garota chamada Dee. Ela me convidou para um jogo chamado Geocaching, que consiste basicamente em utilizar algum aparelho de GPS para localizar tesouros escondidos por outros jogadores. A localização é dada, mas daí você tem de achar, pois pode estar dentro de um cano velho, num buraco no chão ou numa fresta de uma parede velha. As pessoas deixam algum objeto ou alguma mensagem. Fui de bike até a casa dela, deixei lá e saímos no carro dela. A casa dela é cheia de decorações de papel machê, bonecos surreais e todo tipo de coisa colorida e seu carro se manteve bem de acordo: branco e todo pintado de bolinhas de diferentes cores. Assim saímos a equipe na caça do tesouro! Achei um dentro de um uma espécie de estátua de uma motocicleta com um motociclista de metal. Estava no guidon e havia umas mensagens dentro. Outro achei num buraco no chão. Havia um pote e dentro dele, alguns pequenos tesouros. Escolhi um carrinho laranja e deixei um chaveiro de New Orleans. Agora com meu novo carro já podia atravessar o continente!

Geocaching!

Geocaching!

Depois dali, encontramos com uma amiga dela e fomos a um restaurante comer alguma parada. Em outra ocasião, ainda fomos à 6th street, que é uma espécie de ponto onde rola a balada por lá. Assim como era a Lapa a algum tempo atrás, a rua é fechada para o tráfego nos horários em que a festa come solta por lá. Um dos lugares a que fomos era uma casa onda estava rolando um ensaio de uma escola de samba de lá. Caí no samba lá e depois a o grupo ainda saiu pela rua dando uma volta no quarteirão. Boa acolhida!

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Tillery Park

Tillery Park

Resolvi organizar um evento lá por meio do Couchsurfing. Aproveitei que estava tinha levado comigo do Brasil uns pacotes de tapioca e puxei um intercâmbio gastronômico. A foi oferecendo seus espaços, mas o que termnou sendo decidido foi o da Bárbara. Lá tem uma cultura grande de parques de trailers e ela tem um trailer onde vende sucos e lanches saudáveis em geral. Compareceu algo entre dez e quinze pessoas. Eu preparei a tapioca e ainda teve um camarada de lá que trouxe um açaí pra completar o rango a la brasileira.

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Finalmente, deixei os EUA rumo ao México. Peguei um ônibus noturno da Greyhound rumo a Monterrey, via Laredo.

A desvairada das colinas – 28 de Janeiro a 7 de Fevereiro de 2013

Tomei o metrô no próprio aeroporto de San Francisco. Chegando a Oakland, saí da estação de metrô Ashby e fui a um bar próximo da casa de meus anfitriões para esperá-los, pois não estavam em casa ainda. Foi interessante, pois estava rolando umas danças folclóricas (acho que irlandesa) e lá fiquei com meu mochilão curtindo. Tanto que quando chegaram pra me buscar, deu vontade de ficar pra ver mais um pouco. Meus anfitriões eram Jessica, Dave e Sakura, o cão. Sakura me deu uma calorosa recepção e manteve a intensa hospitalidade durante toda minha estadia!

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Eles tinham umas três bicicletas e deixaram uma na minha responsa. Ela tava meio ferrada, mas dava pro gasto. Assim que acordei, já peguei o camelo e fui fazer uma exploração de Oakland. A cidade faz parte da chamada Bay Area, que é a região metropolitana de San Francisco. Não há grandes atrações turísticas na cidade, mas é um lugar bem interessante e agradável. Apesar de que digam que há áreas perigosas por lá, não vi nada que me oferecesse ameaça. Meu primeiro rolé foi até o centro, onde fiquei descansando no Lakeside Park, um parque que fica à beira do Lago Merritt, situado bem no centro da cidade. O lago é também um santuário de vida marinha (o primeiro a ser assim designado oficialmente em todo os EUA), tendo bastantes aves habitando por ali.

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Lago Merritt

Depois ainda passei pela Chinatown e apreciei alguns prédios interessantes no centro, como os do Paramount Theatre e o Fox Theatre.

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Já no dia seguinte, decidi dar um rolé no sentido norte, rumo a Berkley, onde está a famosa universidade. No caminho desde Oakland, há muitas lanchonetes e restaurantes. Parei sorveteria que tinha uns sorvetes incríveis e também numa padaria onde comprei um pedaço de queijo de cabra delicioso (e barato) e ainda de quebra troquei umas idéias com o atendente, que era mexicano e me deu alguns conselhos sobre sua terra natal. Fui até a universidade e dei umas voltas pelo campus. Saí de lá já no fim da tarde e desci até o porto onde apreciei o crepúsculo. Na volta, parei num restaurante tailandês e jantei um delicioso curry. Antes de voltar pra casa ainda encontrei um mercadinho de produtos latinos, onde comprei uma goiabada brasileira. Aliás falando de coisas latinas e asiáticas, vale mencionar que, apesar de sabermos que a Califórnia ter sido parte do México, é só quando você pisa lá e vê a quantidade de latinoamericanos, que dá pra ter uma noção tanto do refluxo migratório contemporâneo, quanto na herança histórica visível na arquitetura (mais no sul) e na grande maioria dos nomes de cidades e logradouros públicos. Mas aqui nesta parte da Califórnia, não são só latinos que abundam. Devido à localização no Pacífico, favoreceu a vinda de imigrantes asiáticos, que inicialmente vieram atraídos pelas promessas da mineração. Até hoje, pelas ruas de San Francisco, se vê multidões de asiáticos nativos misturados a uma outra multidão de turistas daquele continente.

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Levei a bicicleta para mais um dia de aventura, só que dessa vez iria finalmente pro outro lado da poça, a San Francisco, para conhecer a Golden Gate e dar um rolé pela cidade. Para chegar ao outro lado da baía, tive que tomar o metrô. O sistema metroviário deles se chama BART e tem um sistema de tarifação interessante, que varia de acordo com a distância que você percorre. Você escolhe o trecho e a máquina te dá o preço. Só que o mais interessante foi quando entrei com minha bicicleta no trem. Aqui, no Rio, agora foi conquistado o direito de extender o direito de usar o metrô também durante os dias de semana, a partir das 21h. Lá no BART você pode transitar com sua bicicleta a qualquer hora de qualquer dia. De qualquer forma, quando entrei no vagão e vi todas aquelas pessoas disputando seus espaços na busca do maior conforto, na minha mentalidade defensiva, mantive o chip carioca e fui cheio de cuidados com minha magrela. Encostei-a num canto tentando não ficar no caminho de ninguém e ocupar o menor espaço possível, cheio de dedos e de fato, sentindo estar no erro por estar ali com minha pequena carga. E qual não foi minha surpresa quando, depois que me senti um pouco menos constrangido, olhei para o lado e vi um cara sentado num daqueles bancos duplos, com a bicicleta à sua frente e se extendendo ao longo do banco e simplesmente bloqueando a outra metade do assento. Quando vi aquilo fiquei perplexo, pois havia gente em pé e ninguém manifestava sequer o menor incômodo com aquilo. Eu imediataemte pensei “que abusado!”, e pra falar a verdade, ainda penso isso. Achei muito interessante ver como as pessoas por lá respeitam o espaço do ciclista, mas achei que aquilo era demais. Quando tomava o BART com a bike, só me sentava quando era possível encostá-la numa parede à frente, segurando com a mão e sem ocupar mais que o assento onde estava sentado.

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Alcatraz

Desembarquei na estação Embarcadero e fui margeando a baía ao longo do porto rumo à Golden Gate. No caminho, pode-se ver de bem perto a famigerada ilha de Alcatraz, onde existia um presídio de segurança máxima, cujo edifício ainda perdura no local e atualmente é uma atração turística que recebe muitos visitantes. A prisão foi desativada nos anos 1960, tendo sido, por essa época, ocupada a ilha por uma tribo indígena e desocupada dois anos depois pelo governo.

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Golden Gate

Depois de ter percorrido boa parte do caminho, me dei conta de que as distâncias tinham sido subestimadas quando estudei o mapa. O negócio nunca chegava, mas o pior é que, além da bicicleta ter um banco duríssimo, ela tava toda descacetada e pra pedalar era algo bem sofrível. Bem, foi um perrengue e daqueles bem demorados, mas consegui chegar à bendita ponte. Lá encontrei com a Stephanie, uma menina que atendeu minha publicação na página do Couchsurfing. De lá tive de tomar um busão para voltar ao centro pois não tinha condições de fazer aquele trajeto todo com aquela bicicleta e também porque agora estava acompanhado… e aí, vai outro fato interessante, pude tomar o ônibus, mesmo trazendo uma bicicleta, porque o carro tem um hack para bicicletas no parachoque dianteiro! Que maravilha!

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Lombard street, a rua mais torta do mundo

A parada seguinte foi visitar a Lombard Street, a rua mais torta do mundo. É uma rua que possui um trecho que passa por uma encosta bem inclinada onde ela vai subindo em zigzag. O lugar também possui uma vista muito bonita da cidade margeando a baía. Aí já era fim de tarde, me separei de Stephanie e tomei o caminho de volta.

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Balmy Alley

No dia 2/2, fui visitar uns becos do Mission Dstrict, cujas casas são todas cobertas por murais. Grande parte das pinturas são de estilo e/ou temas latinos, assim como também muito psicodelismo. O lugar mais famoso é a Balmy Alley. Outro beco conhecido é a Clarion Alley, que é formado por dissidentes da Balmy. Depois voltei caminhando pela Mission Avenue até o centro. No Mission District você encontra muitas lojinhas latinas, onde se pode comprar até jaca ou graviola. Mission é um bairro meio alternativo, com muita influência latina.

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Clarion Alley

A minha estada em San Francisco tinha também como objetivo servir de base para mais algumas road trips. Uma era visitar o Parque Redwoods, mais ao norte, com suas sequóias gigantes. Outro, mais ousado, era ir a Utah e visitar os canyons e se possível, descer até o sudoeste dos EUA por toda aquela região de desertos e canyons. Bom, a primeira tentativa foi com relação às redwoods. Lancei um chamado no facebook e consegui o retorno de uma boa galera. Então marcamos de manhã no aeroporto para alugar um carro. Éramos uns cinco, mas qual não foi nossa surpresa quando descobrimos que todos entre nós ou não tinha licença para dirigir, ou se tinha, não tinha a idade legal para usá-la nos EUA e muito menos alugar um carro. Tentamos encontrar um jeito, mas não rolou. Tinha um no grupo que era um cambojano e ficou muito estressado e já decidiu meter o pé. Uma menina também decidiu sair, mas eu, um israelense e uma neozelandesa decidimos tentar alguma coisa.

Ele se chamava Adam e ela, Dani. Decidimos tentar uma carona para qualquer lugar que fosse e decidimos fazer isso na saída do estacionamento do aeroporto. Não tivemos muito êxito na empreitada até que parou um carro. Uma viatura da polícia. O policial nos informou que no estado da Califórnia é proibido pedir carona em logradouros públicos. Foi um tanto desanimador aquela notícia, mas pelo menos o cara não prendeu e nem multou a gente. Ainda trocamos umas idéias com cara e descobrimos que ele tocava gaita de fole.

No fim das contas, pegamos um busão de volta pro centro de San Francisco e o motorista nos deu carona! Yes! Conseguimos! Ficamos os três vagando pela cidade até que decidimos para num parque chamado Yerba Buena Gardens. É uma ampla área verde, com chafarizes e estátuas e construções contemporâneas. Em frente a ele está a igreja de St. Patrick. Era um belo dia de sol e o lugar é excelente pra se estirar. Ao fim do dia, Adam nos convidou para ir a à casa de seu tio, num subúrbio de San Francisco. Dani preferiu retornar a seu hostel. Eu aceitei, até porque tinha dito aos meus anfitriões que passaria uns dias fora por conta da pretendida viagem.

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Yerbe Buena Garden

A casa ficava à beira de um rio e com uma bonita vista desde a sala. O lugar parecia bem aprazível, porém no dia seguinte ao ir embora, tive uma desagradável surpresa. Descobri o que são de fato aqueles subúrbios estadunidenses dos filmes de Hollywood. No meio da tarde, não há simplesmente uma viv’alma pelas ruas. Aquelas casas com seus jardins e apenas carros passando. Fui em busca do ponto de ônibus e cadê que tinha alguém pra informar. Andei, andei, andei e nada. E quando digo nada é nada mesmo. Incrível! Já estava ficando desesperado, quando esbarrei com um grupo jardineiros trabalhando numa propriedade. Fui até eles pedir informação, mas me disseram que não conheciam nada dali (na verdade, mal falavam inglês, pois eram imigrantes latinoamericanos). Foi quando aconteceu algo inimaginável: avistei um shopping center e ironicamente aquilo me pareceu um oásis. Havia gente entrando e saindo de seus carros no estacionamento. Depois de algumas tentativas frustradas, um homem que preparava-se para sair me deu mais atenção e tentou me explicar, mas era meio confuso se orientar naquela árida vizinhança. Então, de repente, o cara me ofereceu uma carona. Disse que poderia me deixar na estação de metrô mais próxima. Perguntei se era caminho de onde ele ia, e ele disse que era no sentido oposto, mas que não tinha problema. Agradeci muito! O brother era um portorriquenho gente boa que já vivia a um bom tempo nos EUA. Batemos um bom papo até a estação e depois que ele partiu e eu agradeci mais um tanto, até me emocionei com aquele gesto de generosidade. Aquilo teria uma influência decisiva na continuação de minha jornada.

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Neste mesmo día, fui encontrar um pessoal que atendeu um outro chamado que fiz no CS para viajar aos canyons de Utah. Era uma canadense e uma chinesa. Laurence, a canadense disse ter feito contato com um cara que vivia num furgão e estava disposto a dar um rolé. Decidimos ir ao encontro do cara e ver qual era a dele. Marcamos num restaurante asiático e ao encontrarmos o figura, não foi exatamente o que esperava. Ele se apresentou como Coco e era uma sujeito de meia idade, com um visual meio forçado de rapper gigolô. Usava um brinco supostamente de diamante e levava consigo seus dois pinschers, tão simpáticos e estilosos quanto o dono. Eu ainda quis ver mais qual era do cara, enquanto que as minas meio que já começaram a tirar o corpo fora. A mim pareceu que o cara estava querendo ir por causa das minas. Daí quando elas desistiram, ele começou a vir com um papo de custos pela viagem, falando que daria uns $80 por dia. Confirmei as suspeitas e dei no pé também. De fato não consegui organizar mais essa outra road trip. Me decidi a, quando voltasse ao Brasil, tirar a habilitação para ter independência numa situação dessas. Nunca dei bola pra carros e amo me deslocar de bicicleta nas cidades, mas em certas ocasiões um motorzinho quebra um galho.

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No dia 3/2 seria a grande decisão da liga de “futebol americano” (não consigo aceitar que chamem FOOT + BALL um esporte que não usa nem os pés, nem tampouco uma bola), o chamado Superbowl. O jogo seria em New Orleans, mas uma das equipes era o San Francisco 49ers. Nas ruas, por todos os lados, se via o nome da equipe local. Nos jardins e até nos letreiros dos ônibus! Foi marcado um encontro para assistir o jogo pela página do Couchsurfing. Foi num bar recheado de gente vestida de vermelho, que é a cor da equipe. Não sei bem como a galera lá se empolga com aquele jogo cheio de paradas toda hora, mas reconheço que apesar disso e de não entender patavinas das regras, aquela partida em especial foi bem empolgante. A equipe rival era o Baltimore Ravens, que a princípio levava grande vantagem. Num certo ponto, não se tinha muita esperança de que o placar pudesse ser revertido, mas os 49ers começaram dar a volta por cima e ao final, apesar de, por muito pouco (não sei bem qual são as contas deles), não terem conseguido superar os Ravens, deu uma batalha bem eletrizante com aqueles brucutus se jogando um em cima do outro.

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A esta altura já havia me mudado para outro couch, mas continuava em Oakland e a minha anfitriã também se chamava Jessica. Certo dia fui a um evento no centro da cidade. Era uma espécie de festival multicultural chamado Oakland Art Murmur, com as ruas tomadas de gente. Várias galerias de arte com as portas abertas ao público, bandas se apresentando, pinturas sendo feitas nas ruas, performances diversas, barracas de comida de rua. Bem interessante essa a festa!

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Por fim meu tempo na desvairada San Francisco chegou ao fim e no dia 7/2, parti rumo a Austin, no Texas, de onde pretendia cruzar a fronteira para o México. O mexicano da padaria onde comprei queijo tinha me dito que a área mais perigosa do México era o norte e principalmente o noroeste, de forma que escolhi o leste, que além disso ali a fronteira ia bem mais ao sul até onde, no passado, os texanos roubaram o território aos mexicanos.

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À beira do mar – 29 de Janeiro de 2013

Meu próximo destino seria San Francisco e meu plano era fazer o trajeto pela costeira Highway 1. É um caminho realmente impressionante, com paisagens incríveis. Só que o trajeto não é feito por ônibus, pois todos tomam a principal e mais movimentada via, a Highway 101, que vai mais por dentro. A única opção de transporte público seria o trem da AMTRAK, que faz alguns trechos beirando o mar. Preferi a fazer de carro mesmo, pois teria mais liberdade e poderia fazer todo o percurso na beira-mar. Em Santa Barbara comecei a fazer contato, via Couchsurfing, com gente que estivesse com a mesma intenção, tanto para rachar os custos, como porque não tenho licença para conduzir. Terminei sendo contactado por uma alemã chamada Rieke que também tinha os mesmos planos. Ela veio de Los Angeles e durmiu uma noite na casa das minhas amigas em Santa Barbara. Pesquisamos os valores de aluguel de carro e no dia seguinte fomos ao aeroporto já com as mochilas prontos pra partir. Escolhemos o carro e pé na estrada!

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No início do caminho, quando ainda estamos um pouco afastados da costa, a estrada é rodeada por belas montanhas. Depois chegamos ao grande Pacífico e a estrada começa a estender-se por baixadas que, por vezes, alongam-se em vastas planícies. A estrada, algumas vezes, se projeta como retões sem fim, mas também muitas outras vezes, principalmente à medida que avançamos ao norte, se esgueira por entre paredões rochosos e o mar revolto. Em alguns trechos, são necessárias pontes para atravessar a rocha, que mergulha abruptamente sobre as águas. Só por essa pequena descrição, já dá pra imaginar que as paradas pra curtir o visu são muito freqüentes…

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Passamos por uma praia abarrotada de elefantes marinhos. As curiosas criaturas estavam ali estendidas na areia, tomando seu banho de sol. Algumas disputavam seu território na areia, outras buscavam um parceiro pra trepar e a maioria estava só de bobeira na preguicinha.

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Um ponto interessante dessa estrada é o Castelo Hearst, o maior castelo das américas. Foi construído por William Hearst, magnata das telecomunicações que inspirou o filme Cidadão Kane, de Orson Welles. Não fomos lá, até porque a entrada era paga e também porque iria consumir demais nosso tempo. Preferimos reservar nosso precioso tempo para aquela natureza esplendorosa.

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Castelo Hearst ao longe

Numa parte em que a estrada sai da linha costeira e penetra pelos bosques de um parque natural, paramos num restaurantezinho na beira da estrada pra comer alguma coisa. Paramos ainda muitas vezes no caminho, até que, quando se aproximava o crepúsculo, paramos numa praia para contemplar o Astro-Rei submergindo nas profundezas do Pacífico, enquanto era cortejado por gaivotas e pelicanos.

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A partir daí seguimos direto para nosso destino final e logo chegamos a San Francisco. Deixamos o carro no aeroporto e nos despedimos, indo cada um pro seu lado. Peguei o metrô para Oakland, onde tinha conseguido um couch.

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23 a 28 de Janeiro de 2013 – O Pacífico à vista!

Em Santa Bárbara, tinha contato de duas amigas, Lara e Marcella, que já haviam ficado na minha casa, no Rio. Aliás, foi com elas aqui em casa que rolou uma gravação de entrevista para o Fantástico, mostrando como funcionava o Couchsurfing. Por lá também conhecia o Mohamed (que também já havia sido meu hóspede), mas como já vimos, estava de rolé em New Orleans, onde o encontrei poucos dias antes. Em Santa Bárbara, ele morava num ônibus escolar, mas não foi dessa vez que me hospedaria no palácio ambulante. Então o plano passou a ser ficar apenas com as meninas.

Do alto no avião, passei por paisagens impressionentes de desertos, montanhas e canyons no interior dos EUA. Enquanto avançava em meio àquela imensidão, o sol também e o crespúsculo tingia toda aquela pintura lunar de alaranjado até lentamente despejar o preto sobre tudo. Cheguei ao aeroporto de Los Angeles à noite e já começou o problema. Minha mochila não apareceu e então fui reclamar no escritório da companhia, a US Airways. Tive de esperar pelo vôo seguinte, onde viria minha bagagem e fiquei lá pelo saguão acessando a internet… tava começando a entender a mensagem de que essa de voar não era meu caminho. E além disso, minhas economias já estavam se torrando. Quando chegou a mochila, peguei um ônibus que levava a um terminal em Santa Bárbara. Lá chegando, já era tarde da noite e chamei um taxista indicado por Lara. Cheguei à casa delas, onde moravam com outras meninas e finalmente descansei.

No dia seguinte, fui ao centro e dei uma volta pelas ruas. É uma cidade confortável com alguns traços da arquitetura colonial espanhola. Na verdade, a maior parte das construções é moderna e apenas com inspiração colonial e abrigando estabelecimentos comerciais modernos ou até luxuosos. Parecia parte da identidade da cidade esse perfil meio Ipanema, só que com um visu retrô. Prolonguei meu passeio até a praia, onde fiquei observando uns pássaros curiosos que vi por lá e fiquei caminhando a esmo. Ao final do passeio pela praia, entrei por algumas ruas e encontrei um mercadinho de orgânicos, comprei alguma coisa e corri pra pegar o busão, pois o último saía às 19h. À noite saímos para umas discotecas e bares.

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Neste dia fomos de carro com Mel, uma amiga das meninas, até a universidade e fomos caminhando pela vegetação costeira. Tivemos de pular uma grade pra entrar na área. Depois fomos pelos prédios da universidade, pois elas tinham algo a resolver por lá. Aproveitei e fui acessar a internet nos computadores que ficam disponíveis aos estudantes. Ao chegarmos, fizemos um jantar para os amigos.

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Também fomos uma boa galera de rolé a uma famosa igreja católica remanescente da época do domínio espanhol, a Misión Santa Barbara, uma bela igreja de estilo colonial. Parece que foi destruída umas duas vezes por terremotos (o último no início do século XX). Pode-se notar que foi reconstruída, pois se percebe detalhes de influência neoclássica na fachada.

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As meninas resolveram me levar para fazer uma trilha por umas montanhas ao redor de Santa Bárbara. Fomos em carro até um certo ponto na estrada de onde seguimos à pé. Nos metemos por umas matas de árvores ressecadas e de galhos retorcidos e não muito altas. As montanhas eram como paredões que espremiam a cidade entre o mar e a rocha. Esta se ergue em forma de dentes escarpados de cor amarelo-areia. Subimos até uma plataforma que se debruça sobre a cidade e o mar com uma linda vista e ali descansamos um pouco antes de descer de volta.

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Na seqüência seria pé na estrada pela deslumbrante Highway 1 rumo a San Francisco.

17 a 21 de Janeiro de 2013 – De outros carnavais!

Afinal, depois de atravessar tantos campos nevados pela ferrovia, chegamos a New Orleans (ou NOLA, como é carinhosamente apelidada). Cheguei lá pelas 4h (da madruga) e tratei de buscar sinal de wi-fi para comunicar-me com minha anfitriã. Tinha conseguido um sofá através do Couchsurfing, e a princípio tinha dito que chegaria às 21h do dia anterior. Com os atrasos, por diversas vezes, tentei inutilmente acessar a internet, para avisar minha anfitriã do problema, mas não foi possível. Quando consegui acessar a internet no saguão da estação, encontrei uma mensagem dela dizendo que tinha vindo me buscar e não me encontrara. Tinha seu telefone, mas preferi esperar para não incomodá-la tão cedo. Só lá pelas 8h, liguei, mas não funcionava e o orelhão maldito ia comendo minhas moedas. Mandei mensagem via e-mail mesmo e dentro de algum tempo ela respondeu. Disse que ia me buscar, ao que respondi que era só me dar o endereço que me virava. Ela insistiu em me buscar e assim fez.

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Chegou de carro e fomos para sua casa, que fica no French Quarter, o bairro turístico onde se concentra a maior parte do casario colonial de influência francesa. Destacam-se as casa de madeira e também as varandas com gradil metálico trabalhado em bonitos arabescos. A conservação da área foi bem feita e conseguiu recuperar-se da devastação do furacão Katrina. Pelo que se viu, a atenção que faltou na ajuda aos moradores das áreas pobres sobrou com muitos esforços em preservar a galinha dos ovos de ouro do turismo da cidade. Como se sabe, centenas de pessoas morreram (quase 1500) em decorrência da catástrofe, além de tantos outros mais desabrigados. Os moradores das periferias sofreram com o total descaso do poder público e quando estive por lá, ainda se recuperava da tragédia.

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Naquele dia mesmo, Sam foi a uma aula de yoga e me convidou. Depois da aula, fomos fazer umas compras e entre outras coisas, compramos o tal do King Cake, que já havia conhecido na Bélgica. Aqui ele vinha com uma cobertura nas cores tradicionais do Mardi Gras (o carnaval de New Orleans), que são o amarelo, o verde e o roxo.

A propósito do Mardi Gras, apesar de ter chegado antes do tempo da grande festa, calhou que cheguei 2 dias antes do Krewe Du Vieux, uma espécie de pré-carnaval deles. Ao contrário da festa principal, esta é mais tradicional, sem muita tecnologia ou aparatos motorizados nos carros alegóricos. Dispensa aparelhos de som e se mantém fiel às bandas. Mesmo antes de ter chegado à cidade já tinha ouvido que o Mardi Gras não passava de uma pegação para jovens bêbados e sem muito mais que isso. No Krewe Du Vieux, havia bastante sátira com política e temas sexuais. Parecia algo que não desprezava a inteligência. O nome, em francês, faz referência ao nome francês do French Quarter (Vieux Carre) mas bem que poderia ser uma referência aos velhos costumes. Vieux quer dizer velho, de forma que Krewe Du Vieux, em vez de significar Turma do Bairro Antigo, poderia ser Turma das Antigas, do carnaval de raiz!

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Krewe du Vieux

 

Ao longo do desfile dos grupos com seus pequenos carros alegóricos, bandas e foliões, traziam temas que, em geral, eram piadas sobre algum suposto escândalo político local. Lá eles também tem o costume de jogar colares, bolinhas de plástico ou outros brindes para a audiência. Aqui ocorreu algo curioso, quando uma garota arremessava brindes, jogou uma mini-bola de futebol americano, a bola ia na direção de uma menina ao meu lado. Só que eu, no espírito galhofeiro do carnaval, interrompi a trajetória da bola ainda no alto e capturei o brinquedinho. Olhei pra ela rindo e disse: “Next time…” Voltei a atenção pro desfile e então ouvi alguém dizer em inglês: “Esses imigrantes vêm aqui para tomar nossas coisas!” No primeiro instante, aquilo soou aos meu ouvidos por alto e como estava com espírito numa boa vibração de festa, nem me toquei. Então alguns segundos depois me liguei de que eu era um estrangeiro e que havia “tomado” a bolinha da garota. Para completar, estava usando um keffeyeh (aquele lenço palestino alvinegro) que tinha ganhado no Marrocos, o que combinado com minha aparência mestiça, dá um quadro perfeito para o ranço preconceituoso. Pensei então: “Acho que é comigo”. Olhei pro lado e ela estava saindo. Aquilo não chegou a me afetar muito (até achei graça), mas me pegou de surpresa, pois não estava na paranoia a espera de agressões racistas. Felizmente aquilo não expressou o que foi minha experiência em NOLA, pois fui sempre bem tratado. Inclusive é curioso como numa cidade relativamente grande, ao andar pelas ruas, as pessoas me cumprimentavam.

Antes de chegar lá, já estava coordenando com Sam de fazer um evento pelo Couchsurfing de intercâmbio culinário. Marcamos e na comunidade local e compareceram umas 5 pessoas além de nós. Apresentamos o king cake nessa ocasião. Também preparei uma torta salgada. Ficamos lá comendo e depois ainda um bom tempo só de papo.

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Às margens do Velho Mississipi

 

Tenho um amigo de amigo de Santa Barbara, Mohamed, com quem havia entrado em contato, pois a costa oeste estava no meu roteiro e calhou que ele não estaria em Santa Barbara justamente porque estava viajando e passaria por NOLA no mesmo momento que eu! Marcamos de nos encontrar no dia seguinte ao intercâmbio culinário. Ele tinha vindo com uma amiga e nos encontramos perto do centro. Comemos alguma coisa e fomos ao Rio Mississipi e ficamos de rolé num parque que fica às suas margens. Também marquei lá com outro camarada, Lionel, que seria meu próximo anfitrião pelo Couchsurfing na cidade. Andamos mais pelo French Quarter e fomos parar no Parque Louis Armstrong, um lugar bem agradável, com muitos referenciais à música negra.

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Parque Armstrong

 

Falando em música negra, naquele dia demos um rolé pelo French Quarter, onde à noite havia muitas opções de apresentações musicais. Fomos pingando de um bar ao outro. Ao final, terminamos indo a um evento numa das periferias da cidade. Lá fomos a um lugar onde ocorria um ensaio para as festas do Mardi Gras, o desfile dos Mardi Gras Indians, que são grupos de foliões se vestem com fantasias com grande quantidade de penas (muito semelhantes às fantasias de nossas escolas de samba aqui no Brasil), o que seria inspirado nos trajes dos indígenas norte-americanos. Esses grupos existem basicamente entre a população negra, e a explicação para a inspiração estaria no contato que os negros tiveram com povos indígenas, quando arregimentados nos batalhões dos chamados “Buffalo Soldiers” (soldados búfalos), soldados negros enviados para combater indígenas rebeldes. Eram chamados búfalos pelos indígenas, devido a seu cabelo, que lembrava a eles a pelugem daqueles animais. No ensaio, os Mardi Gras Indians não traziam suas fantasias, mas apenas faziam sua curiosa dança de combate. Os dançarinos se posicionam dentro de um corredor aberto pela multidão, se encarando com expressões ameaçadoras, os braços levantados no ar como lanças. Eles corriam um na direção do outro, como se fosse uma justa medieval, com os cavaleiros e seus cavalos quebrando lanças. Paravam bem perto um do outro, quase se tocando. Se afastavam e voltavam à investida depois de fazerem mais algumas poses marciais. Esses bairros periféricos são tidos como bem perigosos (principalmente após a desgraça do furacão Katrina), apesar de que não se passou nada conosco enquanto estivemos por ali.

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Ensaio dos Mardi Gras Indians

 

Nos dias seguintes, terminei me mudando para a casa de Lionel, que fica num bairro chamado Bywater. O lugar é um tipo de subúrbio boêmio e com algum ar alternativo. Lá também tinha um mercado orgânico, onde comprei algum estoque de frutos secos para continuar a viagem. Por ali passei meus últimos dias em NOLA. Mohamed foi com amigos para Austin num carro. Ele me chamou, mas meu plano era chegar logo à Costa Oeste. Talvez se isso tivesse acontecido mais à frente, teria aceitado a proposta. Mas ainda havia muita estrada pra rodar… no chão e na mente.

No dia 21, peguei um voo para Los Angeles.