A desvairada das colinas – 28 de Janeiro a 7 de Fevereiro de 2013

Tomei o metrô no próprio aeroporto de San Francisco. Chegando a Oakland, saí da estação de metrô Ashby e fui a um bar próximo da casa de meus anfitriões para esperá-los, pois não estavam em casa ainda. Foi interessante, pois estava rolando umas danças folclóricas (acho que irlandesa) e lá fiquei com meu mochilão curtindo. Tanto que quando chegaram pra me buscar, deu vontade de ficar pra ver mais um pouco. Meus anfitriões eram Jessica, Dave e Sakura, o cão. Sakura me deu uma calorosa recepção e manteve a intensa hospitalidade durante toda minha estadia!

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Eles tinham umas três bicicletas e deixaram uma na minha responsa. Ela tava meio ferrada, mas dava pro gasto. Assim que acordei, já peguei o camelo e fui fazer uma exploração de Oakland. A cidade faz parte da chamada Bay Area, que é a região metropolitana de San Francisco. Não há grandes atrações turísticas na cidade, mas é um lugar bem interessante e agradável. Apesar de que digam que há áreas perigosas por lá, não vi nada que me oferecesse ameaça. Meu primeiro rolé foi até o centro, onde fiquei descansando no Lakeside Park, um parque que fica à beira do Lago Merritt, situado bem no centro da cidade. O lago é também um santuário de vida marinha (o primeiro a ser assim designado oficialmente em todo os EUA), tendo bastantes aves habitando por ali.

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Lago Merritt

Depois ainda passei pela Chinatown e apreciei alguns prédios interessantes no centro, como os do Paramount Theatre e o Fox Theatre.

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Já no dia seguinte, decidi dar um rolé no sentido norte, rumo a Berkley, onde está a famosa universidade. No caminho desde Oakland, há muitas lanchonetes e restaurantes. Parei sorveteria que tinha uns sorvetes incríveis e também numa padaria onde comprei um pedaço de queijo de cabra delicioso (e barato) e ainda de quebra troquei umas idéias com o atendente, que era mexicano e me deu alguns conselhos sobre sua terra natal. Fui até a universidade e dei umas voltas pelo campus. Saí de lá já no fim da tarde e desci até o porto onde apreciei o crepúsculo. Na volta, parei num restaurante tailandês e jantei um delicioso curry. Antes de voltar pra casa ainda encontrei um mercadinho de produtos latinos, onde comprei uma goiabada brasileira. Aliás falando de coisas latinas e asiáticas, vale mencionar que, apesar de sabermos que a Califórnia ter sido parte do México, é só quando você pisa lá e vê a quantidade de latinoamericanos, que dá pra ter uma noção tanto do refluxo migratório contemporâneo, quanto na herança histórica visível na arquitetura (mais no sul) e na grande maioria dos nomes de cidades e logradouros públicos. Mas aqui nesta parte da Califórnia, não são só latinos que abundam. Devido à localização no Pacífico, favoreceu a vinda de imigrantes asiáticos, que inicialmente vieram atraídos pelas promessas da mineração. Até hoje, pelas ruas de San Francisco, se vê multidões de asiáticos nativos misturados a uma outra multidão de turistas daquele continente.

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Levei a bicicleta para mais um dia de aventura, só que dessa vez iria finalmente pro outro lado da poça, a San Francisco, para conhecer a Golden Gate e dar um rolé pela cidade. Para chegar ao outro lado da baía, tive que tomar o metrô. O sistema metroviário deles se chama BART e tem um sistema de tarifação interessante, que varia de acordo com a distância que você percorre. Você escolhe o trecho e a máquina te dá o preço. Só que o mais interessante foi quando entrei com minha bicicleta no trem. Aqui, no Rio, agora foi conquistado o direito de extender o direito de usar o metrô também durante os dias de semana, a partir das 21h. Lá no BART você pode transitar com sua bicicleta a qualquer hora de qualquer dia. De qualquer forma, quando entrei no vagão e vi todas aquelas pessoas disputando seus espaços na busca do maior conforto, na minha mentalidade defensiva, mantive o chip carioca e fui cheio de cuidados com minha magrela. Encostei-a num canto tentando não ficar no caminho de ninguém e ocupar o menor espaço possível, cheio de dedos e de fato, sentindo estar no erro por estar ali com minha pequena carga. E qual não foi minha surpresa quando, depois que me senti um pouco menos constrangido, olhei para o lado e vi um cara sentado num daqueles bancos duplos, com a bicicleta à sua frente e se extendendo ao longo do banco e simplesmente bloqueando a outra metade do assento. Quando vi aquilo fiquei perplexo, pois havia gente em pé e ninguém manifestava sequer o menor incômodo com aquilo. Eu imediataemte pensei “que abusado!”, e pra falar a verdade, ainda penso isso. Achei muito interessante ver como as pessoas por lá respeitam o espaço do ciclista, mas achei que aquilo era demais. Quando tomava o BART com a bike, só me sentava quando era possível encostá-la numa parede à frente, segurando com a mão e sem ocupar mais que o assento onde estava sentado.

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Alcatraz

Desembarquei na estação Embarcadero e fui margeando a baía ao longo do porto rumo à Golden Gate. No caminho, pode-se ver de bem perto a famigerada ilha de Alcatraz, onde existia um presídio de segurança máxima, cujo edifício ainda perdura no local e atualmente é uma atração turística que recebe muitos visitantes. A prisão foi desativada nos anos 1960, tendo sido, por essa época, ocupada a ilha por uma tribo indígena e desocupada dois anos depois pelo governo.

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Golden Gate

Depois de ter percorrido boa parte do caminho, me dei conta de que as distâncias tinham sido subestimadas quando estudei o mapa. O negócio nunca chegava, mas o pior é que, além da bicicleta ter um banco duríssimo, ela tava toda descacetada e pra pedalar era algo bem sofrível. Bem, foi um perrengue e daqueles bem demorados, mas consegui chegar à bendita ponte. Lá encontrei com a Stephanie, uma menina que atendeu minha publicação na página do Couchsurfing. De lá tive de tomar um busão para voltar ao centro pois não tinha condições de fazer aquele trajeto todo com aquela bicicleta e também porque agora estava acompanhado… e aí, vai outro fato interessante, pude tomar o ônibus, mesmo trazendo uma bicicleta, porque o carro tem um hack para bicicletas no parachoque dianteiro! Que maravilha!

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Lombard street, a rua mais torta do mundo

A parada seguinte foi visitar a Lombard Street, a rua mais torta do mundo. É uma rua que possui um trecho que passa por uma encosta bem inclinada onde ela vai subindo em zigzag. O lugar também possui uma vista muito bonita da cidade margeando a baía. Aí já era fim de tarde, me separei de Stephanie e tomei o caminho de volta.

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Balmy Alley

No dia 2/2, fui visitar uns becos do Mission Dstrict, cujas casas são todas cobertas por murais. Grande parte das pinturas são de estilo e/ou temas latinos, assim como também muito psicodelismo. O lugar mais famoso é a Balmy Alley. Outro beco conhecido é a Clarion Alley, que é formado por dissidentes da Balmy. Depois voltei caminhando pela Mission Avenue até o centro. No Mission District você encontra muitas lojinhas latinas, onde se pode comprar até jaca ou graviola. Mission é um bairro meio alternativo, com muita influência latina.

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Clarion Alley

A minha estada em San Francisco tinha também como objetivo servir de base para mais algumas road trips. Uma era visitar o Parque Redwoods, mais ao norte, com suas sequóias gigantes. Outro, mais ousado, era ir a Utah e visitar os canyons e se possível, descer até o sudoeste dos EUA por toda aquela região de desertos e canyons. Bom, a primeira tentativa foi com relação às redwoods. Lancei um chamado no facebook e consegui o retorno de uma boa galera. Então marcamos de manhã no aeroporto para alugar um carro. Éramos uns cinco, mas qual não foi nossa surpresa quando descobrimos que todos entre nós ou não tinha licença para dirigir, ou se tinha, não tinha a idade legal para usá-la nos EUA e muito menos alugar um carro. Tentamos encontrar um jeito, mas não rolou. Tinha um no grupo que era um cambojano e ficou muito estressado e já decidiu meter o pé. Uma menina também decidiu sair, mas eu, um israelense e uma neozelandesa decidimos tentar alguma coisa.

Ele se chamava Adam e ela, Dani. Decidimos tentar uma carona para qualquer lugar que fosse e decidimos fazer isso na saída do estacionamento do aeroporto. Não tivemos muito êxito na empreitada até que parou um carro. Uma viatura da polícia. O policial nos informou que no estado da Califórnia é proibido pedir carona em logradouros públicos. Foi um tanto desanimador aquela notícia, mas pelo menos o cara não prendeu e nem multou a gente. Ainda trocamos umas idéias com cara e descobrimos que ele tocava gaita de fole.

No fim das contas, pegamos um busão de volta pro centro de San Francisco e o motorista nos deu carona! Yes! Conseguimos! Ficamos os três vagando pela cidade até que decidimos para num parque chamado Yerba Buena Gardens. É uma ampla área verde, com chafarizes e estátuas e construções contemporâneas. Em frente a ele está a igreja de St. Patrick. Era um belo dia de sol e o lugar é excelente pra se estirar. Ao fim do dia, Adam nos convidou para ir a à casa de seu tio, num subúrbio de San Francisco. Dani preferiu retornar a seu hostel. Eu aceitei, até porque tinha dito aos meus anfitriões que passaria uns dias fora por conta da pretendida viagem.

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Yerbe Buena Garden

A casa ficava à beira de um rio e com uma bonita vista desde a sala. O lugar parecia bem aprazível, porém no dia seguinte ao ir embora, tive uma desagradável surpresa. Descobri o que são de fato aqueles subúrbios estadunidenses dos filmes de Hollywood. No meio da tarde, não há simplesmente uma viv’alma pelas ruas. Aquelas casas com seus jardins e apenas carros passando. Fui em busca do ponto de ônibus e cadê que tinha alguém pra informar. Andei, andei, andei e nada. E quando digo nada é nada mesmo. Incrível! Já estava ficando desesperado, quando esbarrei com um grupo jardineiros trabalhando numa propriedade. Fui até eles pedir informação, mas me disseram que não conheciam nada dali (na verdade, mal falavam inglês, pois eram imigrantes latinoamericanos). Foi quando aconteceu algo inimaginável: avistei um shopping center e ironicamente aquilo me pareceu um oásis. Havia gente entrando e saindo de seus carros no estacionamento. Depois de algumas tentativas frustradas, um homem que preparava-se para sair me deu mais atenção e tentou me explicar, mas era meio confuso se orientar naquela árida vizinhança. Então, de repente, o cara me ofereceu uma carona. Disse que poderia me deixar na estação de metrô mais próxima. Perguntei se era caminho de onde ele ia, e ele disse que era no sentido oposto, mas que não tinha problema. Agradeci muito! O brother era um portorriquenho gente boa que já vivia a um bom tempo nos EUA. Batemos um bom papo até a estação e depois que ele partiu e eu agradeci mais um tanto, até me emocionei com aquele gesto de generosidade. Aquilo teria uma influência decisiva na continuação de minha jornada.

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Neste mesmo día, fui encontrar um pessoal que atendeu um outro chamado que fiz no CS para viajar aos canyons de Utah. Era uma canadense e uma chinesa. Laurence, a canadense disse ter feito contato com um cara que vivia num furgão e estava disposto a dar um rolé. Decidimos ir ao encontro do cara e ver qual era a dele. Marcamos num restaurante asiático e ao encontrarmos o figura, não foi exatamente o que esperava. Ele se apresentou como Coco e era uma sujeito de meia idade, com um visual meio forçado de rapper gigolô. Usava um brinco supostamente de diamante e levava consigo seus dois pinschers, tão simpáticos e estilosos quanto o dono. Eu ainda quis ver mais qual era do cara, enquanto que as minas meio que já começaram a tirar o corpo fora. A mim pareceu que o cara estava querendo ir por causa das minas. Daí quando elas desistiram, ele começou a vir com um papo de custos pela viagem, falando que daria uns $80 por dia. Confirmei as suspeitas e dei no pé também. De fato não consegui organizar mais essa outra road trip. Me decidi a, quando voltasse ao Brasil, tirar a habilitação para ter independência numa situação dessas. Nunca dei bola pra carros e amo me deslocar de bicicleta nas cidades, mas em certas ocasiões um motorzinho quebra um galho.

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No dia 3/2 seria a grande decisão da liga de “futebol americano” (não consigo aceitar que chamem FOOT + BALL um esporte que não usa nem os pés, nem tampouco uma bola), o chamado Superbowl. O jogo seria em New Orleans, mas uma das equipes era o San Francisco 49ers. Nas ruas, por todos os lados, se via o nome da equipe local. Nos jardins e até nos letreiros dos ônibus! Foi marcado um encontro para assistir o jogo pela página do Couchsurfing. Foi num bar recheado de gente vestida de vermelho, que é a cor da equipe. Não sei bem como a galera lá se empolga com aquele jogo cheio de paradas toda hora, mas reconheço que apesar disso e de não entender patavinas das regras, aquela partida em especial foi bem empolgante. A equipe rival era o Baltimore Ravens, que a princípio levava grande vantagem. Num certo ponto, não se tinha muita esperança de que o placar pudesse ser revertido, mas os 49ers começaram dar a volta por cima e ao final, apesar de, por muito pouco (não sei bem qual são as contas deles), não terem conseguido superar os Ravens, deu uma batalha bem eletrizante com aqueles brucutus se jogando um em cima do outro.

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A esta altura já havia me mudado para outro couch, mas continuava em Oakland e a minha anfitriã também se chamava Jessica. Certo dia fui a um evento no centro da cidade. Era uma espécie de festival multicultural chamado Oakland Art Murmur, com as ruas tomadas de gente. Várias galerias de arte com as portas abertas ao público, bandas se apresentando, pinturas sendo feitas nas ruas, performances diversas, barracas de comida de rua. Bem interessante essa a festa!

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Por fim meu tempo na desvairada San Francisco chegou ao fim e no dia 7/2, parti rumo a Austin, no Texas, de onde pretendia cruzar a fronteira para o México. O mexicano da padaria onde comprei queijo tinha me dito que a área mais perigosa do México era o norte e principalmente o noroeste, de forma que escolhi o leste, que além disso ali a fronteira ia bem mais ao sul até onde, no passado, os texanos roubaram o território aos mexicanos.

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À beira do mar – 29 de Janeiro de 2013

Meu próximo destino seria San Francisco e meu plano era fazer o trajeto pela costeira Highway 1. É um caminho realmente impressionante, com paisagens incríveis. Só que o trajeto não é feito por ônibus, pois todos tomam a principal e mais movimentada via, a Highway 101, que vai mais por dentro. A única opção de transporte público seria o trem da AMTRAK, que faz alguns trechos beirando o mar. Preferi a fazer de carro mesmo, pois teria mais liberdade e poderia fazer todo o percurso na beira-mar. Em Santa Barbara comecei a fazer contato, via Couchsurfing, com gente que estivesse com a mesma intenção, tanto para rachar os custos, como porque não tenho licença para conduzir. Terminei sendo contactado por uma alemã chamada Rieke que também tinha os mesmos planos. Ela veio de Los Angeles e durmiu uma noite na casa das minhas amigas em Santa Barbara. Pesquisamos os valores de aluguel de carro e no dia seguinte fomos ao aeroporto já com as mochilas prontos pra partir. Escolhemos o carro e pé na estrada!

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No início do caminho, quando ainda estamos um pouco afastados da costa, a estrada é rodeada por belas montanhas. Depois chegamos ao grande Pacífico e a estrada começa a estender-se por baixadas que, por vezes, alongam-se em vastas planícies. A estrada, algumas vezes, se projeta como retões sem fim, mas também muitas outras vezes, principalmente à medida que avançamos ao norte, se esgueira por entre paredões rochosos e o mar revolto. Em alguns trechos, são necessárias pontes para atravessar a rocha, que mergulha abruptamente sobre as águas. Só por essa pequena descrição, já dá pra imaginar que as paradas pra curtir o visu são muito freqüentes…

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Passamos por uma praia abarrotada de elefantes marinhos. As curiosas criaturas estavam ali estendidas na areia, tomando seu banho de sol. Algumas disputavam seu território na areia, outras buscavam um parceiro pra trepar e a maioria estava só de bobeira na preguicinha.

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Um ponto interessante dessa estrada é o Castelo Hearst, o maior castelo das américas. Foi construído por William Hearst, magnata das telecomunicações que inspirou o filme Cidadão Kane, de Orson Welles. Não fomos lá, até porque a entrada era paga e também porque iria consumir demais nosso tempo. Preferimos reservar nosso precioso tempo para aquela natureza esplendorosa.

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Castelo Hearst ao longe

Numa parte em que a estrada sai da linha costeira e penetra pelos bosques de um parque natural, paramos num restaurantezinho na beira da estrada pra comer alguma coisa. Paramos ainda muitas vezes no caminho, até que, quando se aproximava o crepúsculo, paramos numa praia para contemplar o Astro-Rei submergindo nas profundezas do Pacífico, enquanto era cortejado por gaivotas e pelicanos.

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A partir daí seguimos direto para nosso destino final e logo chegamos a San Francisco. Deixamos o carro no aeroporto e nos despedimos, indo cada um pro seu lado. Peguei o metrô para Oakland, onde tinha conseguido um couch.

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23 a 28 de Janeiro de 2013 – O Pacífico à vista!

Em Santa Bárbara, tinha contato de duas amigas, Lara e Marcella, que já haviam ficado na minha casa, no Rio. Aliás, foi com elas aqui em casa que rolou uma gravação de entrevista para o Fantástico, mostrando como funcionava o Couchsurfing. Por lá também conhecia o Mohamed (que também já havia sido meu hóspede), mas como já vimos, estava de rolé em New Orleans, onde o encontrei poucos dias antes. Em Santa Bárbara, ele morava num ônibus escolar, mas não foi dessa vez que me hospedaria no palácio ambulante. Então o plano passou a ser ficar apenas com as meninas.

Do alto no avião, passei por paisagens impressionentes de desertos, montanhas e canyons no interior dos EUA. Enquanto avançava em meio àquela imensidão, o sol também e o crespúsculo tingia toda aquela pintura lunar de alaranjado até lentamente despejar o preto sobre tudo. Cheguei ao aeroporto de Los Angeles à noite e já começou o problema. Minha mochila não apareceu e então fui reclamar no escritório da companhia, a US Airways. Tive de esperar pelo vôo seguinte, onde viria minha bagagem e fiquei lá pelo saguão acessando a internet… tava começando a entender a mensagem de que essa de voar não era meu caminho. E além disso, minhas economias já estavam se torrando. Quando chegou a mochila, peguei um ônibus que levava a um terminal em Santa Bárbara. Lá chegando, já era tarde da noite e chamei um taxista indicado por Lara. Cheguei à casa delas, onde moravam com outras meninas e finalmente descansei.

No dia seguinte, fui ao centro e dei uma volta pelas ruas. É uma cidade confortável com alguns traços da arquitetura colonial espanhola. Na verdade, a maior parte das construções é moderna e apenas com inspiração colonial e abrigando estabelecimentos comerciais modernos ou até luxuosos. Parecia parte da identidade da cidade esse perfil meio Ipanema, só que com um visu retrô. Prolonguei meu passeio até a praia, onde fiquei observando uns pássaros curiosos que vi por lá e fiquei caminhando a esmo. Ao final do passeio pela praia, entrei por algumas ruas e encontrei um mercadinho de orgânicos, comprei alguma coisa e corri pra pegar o busão, pois o último saía às 19h. À noite saímos para umas discotecas e bares.

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Neste dia fomos de carro com Mel, uma amiga das meninas, até a universidade e fomos caminhando pela vegetação costeira. Tivemos de pular uma grade pra entrar na área. Depois fomos pelos prédios da universidade, pois elas tinham algo a resolver por lá. Aproveitei e fui acessar a internet nos computadores que ficam disponíveis aos estudantes. Ao chegarmos, fizemos um jantar para os amigos.

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Também fomos uma boa galera de rolé a uma famosa igreja católica remanescente da época do domínio espanhol, a Misión Santa Barbara, uma bela igreja de estilo colonial. Parece que foi destruída umas duas vezes por terremotos (o último no início do século XX). Pode-se notar que foi reconstruída, pois se percebe detalhes de influência neoclássica na fachada.

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As meninas resolveram me levar para fazer uma trilha por umas montanhas ao redor de Santa Bárbara. Fomos em carro até um certo ponto na estrada de onde seguimos à pé. Nos metemos por umas matas de árvores ressecadas e de galhos retorcidos e não muito altas. As montanhas eram como paredões que espremiam a cidade entre o mar e a rocha. Esta se ergue em forma de dentes escarpados de cor amarelo-areia. Subimos até uma plataforma que se debruça sobre a cidade e o mar com uma linda vista e ali descansamos um pouco antes de descer de volta.

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Na seqüência seria pé na estrada pela deslumbrante Highway 1 rumo a San Francisco.

17 a 21 de Janeiro de 2013 – De outros carnavais!

Afinal, depois de atravessar tantos campos nevados pela ferrovia, chegamos a New Orleans (ou NOLA, como é carinhosamente apelidada). Cheguei lá pelas 4h (da madruga) e tratei de buscar sinal de wi-fi para comunicar-me com minha anfitriã. Tinha conseguido um sofá através do Couchsurfing, e a princípio tinha dito que chegaria às 21h do dia anterior. Com os atrasos, por diversas vezes, tentei inutilmente acessar a internet, para avisar minha anfitriã do problema, mas não foi possível. Quando consegui acessar a internet no saguão da estação, encontrei uma mensagem dela dizendo que tinha vindo me buscar e não me encontrara. Tinha seu telefone, mas preferi esperar para não incomodá-la tão cedo. Só lá pelas 8h, liguei, mas não funcionava e o orelhão maldito ia comendo minhas moedas. Mandei mensagem via e-mail mesmo e dentro de algum tempo ela respondeu. Disse que ia me buscar, ao que respondi que era só me dar o endereço que me virava. Ela insistiu em me buscar e assim fez.

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Chegou de carro e fomos para sua casa, que fica no French Quarter, o bairro turístico onde se concentra a maior parte do casario colonial de influência francesa. Destacam-se as casa de madeira e também as varandas com gradil metálico trabalhado em bonitos arabescos. A conservação da área foi bem feita e conseguiu recuperar-se da devastação do furacão Katrina. Pelo que se viu, a atenção que faltou na ajuda aos moradores das áreas pobres sobrou com muitos esforços em preservar a galinha dos ovos de ouro do turismo da cidade. Como se sabe, centenas de pessoas morreram (quase 1500) em decorrência da catástrofe, além de tantos outros mais desabrigados. Os moradores das periferias sofreram com o total descaso do poder público e quando estive por lá, ainda se recuperava da tragédia.

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Naquele dia mesmo, Sam foi a uma aula de yoga e me convidou. Depois da aula, fomos fazer umas compras e entre outras coisas, compramos o tal do King Cake, que já havia conhecido na Bélgica. Aqui ele vinha com uma cobertura nas cores tradicionais do Mardi Gras (o carnaval de New Orleans), que são o amarelo, o verde e o roxo.

A propósito do Mardi Gras, apesar de ter chegado antes do tempo da grande festa, calhou que cheguei 2 dias antes do Krewe Du Vieux, uma espécie de pré-carnaval deles. Ao contrário da festa principal, esta é mais tradicional, sem muita tecnologia ou aparatos motorizados nos carros alegóricos. Dispensa aparelhos de som e se mantém fiel às bandas. Mesmo antes de ter chegado à cidade já tinha ouvido que o Mardi Gras não passava de uma pegação para jovens bêbados e sem muito mais que isso. No Krewe Du Vieux, havia bastante sátira com política e temas sexuais. Parecia algo que não desprezava a inteligência. O nome, em francês, faz referência ao nome francês do French Quarter (Vieux Carre) mas bem que poderia ser uma referência aos velhos costumes. Vieux quer dizer velho, de forma que Krewe Du Vieux, em vez de significar Turma do Bairro Antigo, poderia ser Turma das Antigas, do carnaval de raiz!

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Krewe du Vieux

 

Ao longo do desfile dos grupos com seus pequenos carros alegóricos, bandas e foliões, traziam temas que, em geral, eram piadas sobre algum suposto escândalo político local. Lá eles também tem o costume de jogar colares, bolinhas de plástico ou outros brindes para a audiência. Aqui ocorreu algo curioso, quando uma garota arremessava brindes, jogou uma mini-bola de futebol americano, a bola ia na direção de uma menina ao meu lado. Só que eu, no espírito galhofeiro do carnaval, interrompi a trajetória da bola ainda no alto e capturei o brinquedinho. Olhei pra ela rindo e disse: “Next time…” Voltei a atenção pro desfile e então ouvi alguém dizer em inglês: “Esses imigrantes vêm aqui para tomar nossas coisas!” No primeiro instante, aquilo soou aos meu ouvidos por alto e como estava com espírito numa boa vibração de festa, nem me toquei. Então alguns segundos depois me liguei de que eu era um estrangeiro e que havia “tomado” a bolinha da garota. Para completar, estava usando um keffeyeh (aquele lenço palestino alvinegro) que tinha ganhado no Marrocos, o que combinado com minha aparência mestiça, dá um quadro perfeito para o ranço preconceituoso. Pensei então: “Acho que é comigo”. Olhei pro lado e ela estava saindo. Aquilo não chegou a me afetar muito (até achei graça), mas me pegou de surpresa, pois não estava na paranoia a espera de agressões racistas. Felizmente aquilo não expressou o que foi minha experiência em NOLA, pois fui sempre bem tratado. Inclusive é curioso como numa cidade relativamente grande, ao andar pelas ruas, as pessoas me cumprimentavam.

Antes de chegar lá, já estava coordenando com Sam de fazer um evento pelo Couchsurfing de intercâmbio culinário. Marcamos e na comunidade local e compareceram umas 5 pessoas além de nós. Apresentamos o king cake nessa ocasião. Também preparei uma torta salgada. Ficamos lá comendo e depois ainda um bom tempo só de papo.

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Às margens do Velho Mississipi

 

Tenho um amigo de amigo de Santa Barbara, Mohamed, com quem havia entrado em contato, pois a costa oeste estava no meu roteiro e calhou que ele não estaria em Santa Barbara justamente porque estava viajando e passaria por NOLA no mesmo momento que eu! Marcamos de nos encontrar no dia seguinte ao intercâmbio culinário. Ele tinha vindo com uma amiga e nos encontramos perto do centro. Comemos alguma coisa e fomos ao Rio Mississipi e ficamos de rolé num parque que fica às suas margens. Também marquei lá com outro camarada, Lionel, que seria meu próximo anfitrião pelo Couchsurfing na cidade. Andamos mais pelo French Quarter e fomos parar no Parque Louis Armstrong, um lugar bem agradável, com muitos referenciais à música negra.

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Parque Armstrong

 

Falando em música negra, naquele dia demos um rolé pelo French Quarter, onde à noite havia muitas opções de apresentações musicais. Fomos pingando de um bar ao outro. Ao final, terminamos indo a um evento numa das periferias da cidade. Lá fomos a um lugar onde ocorria um ensaio para as festas do Mardi Gras, o desfile dos Mardi Gras Indians, que são grupos de foliões se vestem com fantasias com grande quantidade de penas (muito semelhantes às fantasias de nossas escolas de samba aqui no Brasil), o que seria inspirado nos trajes dos indígenas norte-americanos. Esses grupos existem basicamente entre a população negra, e a explicação para a inspiração estaria no contato que os negros tiveram com povos indígenas, quando arregimentados nos batalhões dos chamados “Buffalo Soldiers” (soldados búfalos), soldados negros enviados para combater indígenas rebeldes. Eram chamados búfalos pelos indígenas, devido a seu cabelo, que lembrava a eles a pelugem daqueles animais. No ensaio, os Mardi Gras Indians não traziam suas fantasias, mas apenas faziam sua curiosa dança de combate. Os dançarinos se posicionam dentro de um corredor aberto pela multidão, se encarando com expressões ameaçadoras, os braços levantados no ar como lanças. Eles corriam um na direção do outro, como se fosse uma justa medieval, com os cavaleiros e seus cavalos quebrando lanças. Paravam bem perto um do outro, quase se tocando. Se afastavam e voltavam à investida depois de fazerem mais algumas poses marciais. Esses bairros periféricos são tidos como bem perigosos (principalmente após a desgraça do furacão Katrina), apesar de que não se passou nada conosco enquanto estivemos por ali.

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Ensaio dos Mardi Gras Indians

 

Nos dias seguintes, terminei me mudando para a casa de Lionel, que fica num bairro chamado Bywater. O lugar é um tipo de subúrbio boêmio e com algum ar alternativo. Lá também tinha um mercado orgânico, onde comprei algum estoque de frutos secos para continuar a viagem. Por ali passei meus últimos dias em NOLA. Mohamed foi com amigos para Austin num carro. Ele me chamou, mas meu plano era chegar logo à Costa Oeste. Talvez se isso tivesse acontecido mais à frente, teria aceitado a proposta. Mas ainda havia muita estrada pra rodar… no chão e na mente.

No dia 21, peguei um voo para Los Angeles.

Cruzando a poça de volta -16 a 17 de Janeiro de 2013

Cheguei à noite ao Aeroporto John F. Kennedy. Já tinha onde ficar, pois minha amiga Eliza estava morando lá e só fiquei sabendo depois que ela viu as fotos da primeira passagem pela cidade e entrou em contato. Esse tipo de surpresa ainda voltaria a ocorrer em outras partes da viagem. Saindo do aeroporto, peguei o metrô rumo ao Harlem, que parece que se tornou minha casa na Grande Maçã (na minha primeira passagem pela cidade também fiquei no bairro). Cheguei em meio a uma leve chuva de granizo. E o pior foi que quando cheguei ao endereço, era daqueles prédios antigos de três andares e não tinha campanhia… tive que dar uns gritos pra que ela me ouvisse.

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So tired

Minha ideia não era ficar muito tempo em New York, pois já havia conhecido antes. No dia seguinte, Eliza me levou pra ir ver a Estátua da Liberdade de perto. Não chegamos a ir à estátua, pois simplesmente passamos numa barca em frente a ela. A barca ia a Staten Island, mas só tomamos a barca para ver a estátua, então nem saímos da estação e já embarcamos na seguinte de volta.

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Como não tinha muitos planos mais do que fazer na cidade, fiquei o resto do meu tempo por lá só vagando pelas ruas do Harlem. A próxima parada seria New Orleans e depois de pesquisar os preços entre os diferentes meios de transporte, decidi optar pelo trem, que demorava e custava mais ou menos o mesmo que o ônibus e além do mais me parecia uma experiência mais interessante. Comprei pela companhia de trens AMTRAK. A viagem era para durar umas 30 horas, mas devido a uma nevasca que novamente nos pegou pelo caminho, levou bem umas 40 horas. Parece que as poucas oportunidades de neve que tive (antes na Europa e agora nos EUA) não foram desperdiçadas… Por várias vezes o trem simplesmente parou no caminho e pra completar o quadro, fui a viagem inteira ao lado de um auto-denominado cafetão do Alabama. O cara, que devia ter entre uns 40 e 50 anos, até que era gente boa, mas às vezes era meio mala. Serviram uma quentinha com arroz e frango e mais umas comidinhas extras devido ao atraso. O frango da quentinha ofereci ao meu vizinho de assento, que aceitou com gosto. Em retribuição recebi um “thanks!” e mais algumas historietas de gigolô para entreter a viagem.

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Estátua de Adam Clayton Powell – Harlem

Adeus ao “Velho Continente” – 13 a 15 de Janeiro de 2013

Bem pela manhãzinha fui ao centro em busca de hospedagem. Encontrei um albergue cobrando uns 15 euros. Daí saí pra passear por Amsterdã e conhecer coisas que não havia visto da outra vez. Na verdade, fiquei mais andando a toa pelas ruas. Passei por um parque interessante, o Vondelpark e por ali fui vagando. Os laguinhos estavam com a maior parte de seus espelhos d’água congelados e as pessoas ainda circulavam por ali, só que bem abrigadas. Uma outra coisa interessante neste parque é que lá tem uma grade chamada findfence, que funciona como uma espécie de “achados e perdidos”, pois as pessoas penduram ali objetos dos mais diversos perdidos pelas pessoas no parque. Uma ideia interessante, mas me perguntei se funcionaria caso tentássemos implantar no Brasil…

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Findfence no Vondelpark

 

Depois de rodar mais pela cidade, comprei alguma comida e voltei ao albergue para descansar, ler alguma coisa e dormir. No dia seguinte iria para Bruxelas na Bélgica, onde encontraria com minha mãe, que estava passando um tempo na Europa e ficando na casa de uma prima em Roma. Em Bruxelas, ficaríamos na casa de uma amiga, Yayi, de quem minha mãe também gosta muito. Para ir busquei novamente o carshare, que é o compartilhamento de viagem. No dia seguinte de manhã encontraria com o cara que estava oferecendo o espaço no carro.

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Vondelpark

 

Pela manhã segui para o ponto de encontro. Era um carro grande, com duas fileiras de bancos atrás e lotado. Deu pra ver nitidamente que o motorista não estava simplesmente compartilhando uma viagem, mas sim trabalhando com aquilo. Ao longo do caminho, falou algumas vezes com um primo, a quem perguntava por uma eventual viagem de regresso que fosse o mais breve possível. Chegamos a Bruxelas lá pelo início da noite. Pedi pro cara me deixar perto da estação de trens, onde havia marcado com minha mãe e Yayi. Foi uma grande emoção reencontrar minha querida mãe depois daquele tempo todo. Mas mal sabia eu que aquele tempo era absolutamente anda se soubesse o quanto ainda ficaria longe depois daquele encontro… Daí seguimos pro apartamento de Yayi, mas já partimos para uma festinha na casa de uns amigos dela. Na verdade, não era uma festa mesmo, mas apenas um jantar entre amigos. O ponto alto da reunião foi a celebração que fizeram com o chamado Galette des Rois (ou King’s Cake), que é um bolo que contém uma prenda dentro (nesse caso, uma moeda) e quando o bolo é repartido, aquele que conseguir a fatia premiada se torna o rei e tem o poder de fazer com que os demais paguem prenda. Houve dois bolos e no segundo, fui premiado e recebi uma coroa de papel. Ordenei que meus súditos dançassem!  Bem, disse que o ponto alto da reunião foi o King’s cake, pois o ponto alto da noite veio quando saímos. Ao chegarmos à calçada, nos demos conta que havia nevado e estava uma boa camada de neve. Eu e minha mãe, que nunca havíamos tocado neve, não nos preocupamos em pagar mico e começamos uma guerra de bolas de neve. Logo outros aderiram ao combate gelado e eram bolinhas pra todos lados, emboscadas, queima-roupa… depois que a empolgação passou, nos metemos em um dos carros e partimos de volta pra casa. O plano para o dia seguinte era conhecer um pouco do centro de Bruxelas e depois ir a Bruges.

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Nevando em Bruxelas

Acordamos e partimos para o centro de Bruxelas, onde íamos visitar a Grand-Place (Grande Praça). No caminho, não pudemos deixar de fazer uma parada numa chocolateria, para provar o famoso chocolate belga. Entramos na Leonidas, que é conhecida, mas não tão cara. Tinha daquelas barras de chocolate tradicionais, assim como também bombons e trufas a quilo. Já municiados com as guloseimas, seguimos para a Praça. Realmente é uma esplanada gigantesca, ainda mais se considerarmos que não é uma dessas cidades modernas, como Brasília cheias de grandes espaços, mas uma cidade antiga e naquela parte ainda predominam construções e ruas medievais. São impactantes não somente as dimensões do logradouro, mas também a riquíssima arquitetura renascentista. A Grand-Place por si só já é uma atração e tanto, mas ainda ocorre nela um evento bianual, no qual cobrem a sua superfície com begônias, formando incríveis (e gigantescos, claro) desenhos coloridos. Infelizmente, não nos tocou presenciar esse espetáculo.

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Grand-place

 

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Mami e eu

 

Tomamos um trem para Bruges, onde chegamos no meio da tarde. É uma cidadezinha pacata, com arquitetura medieval e recortada por muitos canais. Inclusive, esses canais, que permitiam o acesso ao mar, fizeram de Bruges, por muito tempo, grande centro comercial. Seu porto foi, por muito tempo, a maior conexão no norte da Europa com as rotas vindas do Mediterrâneo. Fomos passeando ao longo dos canais e apreciando a arquitetura. O clima estava bem fechado, dando àquelas construções medievais um ar sombrio, o que era agravado ainda mais com a falta de gente nas ruas, temerosas com a ameaça de chuva ou neve. Depois de anoitecer, ainda caiu uma garoa, mas também decidimos voltar logo pra Bruxelas, pois tudo já estava fechando na cidadezinha e não queríamos perder o último trem. A caminho da estação, terminou que, pela primeira vez, eu e minha mãe presenciamos precipitação de neve. Lia também vinha querendo de todo jeito ver a neve, mas terminou voltando pro Brasil um par de dias antes dos flocos desabarem.

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Bruges

 

Chegamos em casa e aquilo já era a minha despedida com minha mãe, pois no dia seguinte de manhanzinha, já partiria bem cedinho pra tomar o trem rumo a Amsterdã, de onde tomaria o vôo para Nova Iorque. Logo depois de me despedir de Lia, já encontrei minha mãe e parece que serviu como uma preparação, pois ao perder a companhia de uma mulher importante, fui rapidamente amparado por outra (a mais importante de todos os tempos) bem às vésperas de me jogar sozinho na minha jornada pelas Américas.

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Eu e a neve

 

De manhã bem cedo acordei e saí pelas ruas e fui caminhando até porque a estação era bem perto. As ruas estavam cobertas de neve e tinha de ir com cuidado, pois derrapava bastante. Quando cheguei na estação, a surpresa: os trens não estavam saindo devido à nevasca que atingiu as linhas de ferro. Não me preocupei tanto porque tinha marcado o trem para um horário bem cedo, justamente para evitar imprevisto. O trem era para as 7h, enquanto que o vôo em Amsterdã era para as 14h e alguma coisa. E o trem já tinha um novo horário, para uma hora depois. Aparentemente tudo correria bem.

 

Porém, logo as coisas foram se complicando. O adiamento para a saída foi se prolongando e quando finalmente partimos, a coisa não melhorou muito, pois as paradas eram constantes e demoradas. Por fim, paramos em uma estação e aquele trem não seguiria mais… babou! Foi começando a se gerar um princípio de rebelião entre os passageiros, que intimávamos os funcionários, que por sua vez tentavam nos acalmar com suposições. Até que por fim decidiram embarcar aqueles que possuíam maior urgência num trem classe executiva de outra companhia. Este seguiu mais rápido, apesar de ainda ter feito umas paradas inesperadas.

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Vista pela janela do trem

Cheguei ao aeroporto Schipol ainda um pouco antes do voo e até daria para embarcar, mas o problema era a bagagem, que não tinha mais tempo de ser embarcada. Ou seja, a neve, que me deu alegria nos últimos dias, agora me faziam perder o voo. Fui até o guichê da companhia aérea e expliquei que tinha perdido o voo, porque meu trem atrasou. O atendente disse que poderia me alocar em outro voo, mas que teria de pagar um complemento. Olhei pra ele, apontei pra grande vidraça que dava vista da parte de fora do aeoporto e perguntei: “Você acha que eu tenho alguma culpa nessa nevasca aí? Eu não estava brincando para ter perdido a hora.” Bem, em muitas outras ocasiões de minha vida esse teria sido o caso, mas ali não. Ele terminou me dando outro vôo sem nenhum custo adicional, que saria às 17h. Fui à praça de alimentção e lá fiquei passando o tempo até a hora do embarque.

Reconquistando a Espanha. Olé! – 10 e 11 de Janeiro de 2013

Fomos ao porto caminhando. Lá comemos alguma coisa numa lanchonete e antes de embarcar, ainda comprei umas lembranças com um vendedor de rua. Pegamos o ferry de volta pra Espanha. Não pagamos nada, pois tínhamos comprado bilhete ida e volta. Mais uma vez atravessamos o mitológico Mediterrâneo, sendo que agora fazendo a rota dos mouros, que outrora penetraram por terras da cristandade. Este foi o caminho de nossos antepassados.

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Estreito de Gibraltar

 

Chegando ao porto de Tarifa, pegamos o busão grátis do ferry para Algeciras e de lá um outro para Sevilla, a cidade mitologicamente fundada pelo semideus Hércules. Da rodoviária, já fomos caminhando à procura de um albergue. Encontramos um na Calle Adriano. Em seguida fomos dar um role pelo centro em busca de algo pra comer. Encontramos uma lanchonete, que tinha um balcão com diversos tipos de queijo bem apetitosos, incluindo de cabra, manchego e outros. Compramos alguns e uns pães e sentamos num banco da rua pra comer. Ficamos passeando pelo centro apreciando a arquitetura de influência moura e muitos edifícios medievais, marcando as ruas decoradas com laranjeiras por todos os lados. A verdade é a história desta cidade remonta à presença de povos ainda mais ancestrais, quando na antiguidade os fenícios penetraram pelo Rio Guadalquivir e se estabeleceram na região após subjugar os aborígenes que aí já habitavam, sendo sucedidos por cartagineses, romanos e visigodos, antes de então chegarem os mouros. A própria lenda de Hércules surge de um rei fenício que conquistou a região onde hoje se encontra Sevilha e por seus feitos aí, passou a ser exaltado e até mesmo divinizado.

Fomos vagando vendo umas lojas e num momento entramos em uma loja de roupas populares e algo se passou. Uma mulher levava seu filho no colo, um menino de uns 2 anos e ele começou a me olhar fixamente. É muito comum acontecer comigo de crianças ficarem me olhando longamente e com curiosidade. Mas nesse caso foi diferente de tudo que já vi. O moleque me mirava com um olhar profundo e com uma leve nota de seriedade como se tivesse avistado algo surpreendente ou sei lá o que. Sua irmãzinha de uns 10 anos, vendo a cena e com medo de aquilo estivesse me constrangendo tentou virar a cabeça dele pro outro lado, mas foi impossível… ele resistia, fazendo toda força para continuar me olhando, me estudando. Eu sorria pra ele, mas aquilo, apesar de não ter me constrangido, me deixou bem surpreso. Estávamos na fila (Lia foi comprar presentinhos para seus familiares) e eles, também, então o garoto só tirou os olhos de mim quando saímos. Realmente, não sei se isso tem a ver com o caso, mas notei que as pessoas da cidade tem um olhar penetrante, que às vezes deixa até escapar umas faíscas.

Tínhamos já fome àquela altura e encontramos um restaurante vegetariano indiano, com preços razoáveis. Batemos o rango e voltamos pro albergue.

No dia seguinte, aderimos a um free walking tour pela parte histórica de Sevilla. O ponto-de-encontro era próximo à catedral e lá mos reunimos ao grupo. A guia era uma polonesa residente na cidade e fazia aqueles passeios por conta própria e apenas divulgando nos albergues. Após a catedral, fomos à Torre del Oro, localizada às margens do Rio Guadalquivir, uma das torres mais famosas da Espanha e inclusive representa a Espanha em um desses joguinhos eletrônicos de guerra. A construção dela foi obra dos mouros com o objetivo de defender a cidade das investidas dos cristãos. Diz-se que havia uma réplica na outra margem e que de um lado ao outro se estendia uma corrente gigantesca que bloqueava a passagem pelo rio. No entanto, há quem diga que isso não passa de lenda. Também a origem do nome da construção é envolvida em controvérsias. Há quem diga que é porque teria supostamente sido depósito de metais preciosos oriundos das colônias espanholas. Uma versão mais fantasiosa explica que ela já havia sido coberta de ouro, mas outras mais realistas afirmam que era revestida de azulejos dourados, assim como também se defende que o dourado seria, na verdade, de seu reflexo nas águas do Guadalquivir. E aliás, este rio sequer pode ser considerado um rio de verdade, pois as águas são desviadas rio acima (para evitar os problemas de enchentes) correndo pelos arredores de Sevilla, sendo aquilo um curso de água isolado do leito verdadeiro do rio, que agora corre por canais ao longo da cidade, e é mantido pela importância que representa paisagisticamente para a história.

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Catedral de Sevilla

 

Além da presença da torre, na margem oposta, está localizado o bairro de Triana, que apesar de pertencer a Sevilla, tem uma identidade própria muito forte, muito ligada à histórica presença de ciganos e da cultura flamenca. Isso fica marcado mesmo no futebol, de modo que Sevilla é representada por duas principais equipes, que são o Sevilla e o Bétis, sendo este último identificado com os habitantes de Triana. Neste ponto, futebol e política se cruzam. A equipe do Bétis teve seu auge no início dos anos 1930, quando sagrou-se campeão espanhol, porém logo em seguida eclodiu a guerra civil e Triana foi uma área onde se travaram intensos combates e com a vitória dos golpistas franquistas, seguiu-se aí forte repressão devido à predomínio de tendências de esquerda entre a população local. Com a guerra as competições no país foram interrompidas e quando se normalizou o calendário futebolístico, curiosamente, o time se encontrava desmantelado e nunca conseguiu recobrar sua força de outrora. Também aqui no Brasil, não faz muito tempo, sofremos um golpe militar e cabe refletir sobre as implicações que um acontecimento político teve no desenvolvimento do cenário futebolístico, do qual notoriamente se utilizaram os governantes juntamente com as elites, para apoiar seu projeto de Estado.

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Rio Guadalquivir e a Torre de Ouro

 

Daí seguimos para a Plaza de Espanha, uma grande esplanada rodeada por um edifício em meia-lua. Este formato tem o objetivo de simbolizar o abraço da Espanha sobre suas colônias. É uma construção grandiosa, que conta ainda com um lago artificial no meio da esplanada. Me pareceu um tanto cínico esse conceito do abraço colonial se levarmos em conta que é uma construção pós-colonial já de meados do século XX.

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Plaza de España

 

Por fim, fomos ao edifício da Real Fábrica de Tabaco (agora uma universidade), onde terminou o passeio, nossa guia pediu a gorjeta e sugeriu aos presentes um restaurante onde ela iria almoçar. Preferimos buscar outra coisa. Ficamos o dia de rolé pela cidade, e entre outros lugares, fomos a algumas outras igrejas e terminamos a noite em baixo do Metropol Parasol, que é uma construção contemporânea, como uma grande coberta sobre uma praça. Na gigantesca estrutura funcionam também um museu e estabelecimentos comerciais.

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Metropol Parasol

 

No dia seguinte, passeamos um pouco mais pela cidade e tomamos um avião para Amsterdã, de onde Lia voaria de volta pro Brasil. Eu também tomaria um vôo de lá, mas dentro de mais alguns dias e não pro Brasil, e sim pra Nova Iorque, de onde continuaria a jornada rumo ao sul, por terra.

Chegamos bem à noite e depois de deixá-la no embarque, fiquei por lá esperando o dia amanhecer. Foi uma despedida difícil, até porque eu iria ficar um bom tempo na estrada. Não planejava ficar tanto tempo quanto terminei ficando, mas ainda assim era um bom tempo.

Usei um pouco da internet do aeroporto e descansei até amanhecer.